Nos braços do Vagabundo – por Letícia Brito

Nos braços do Vagabundo

Por Letícia Brito

A AUTORA

14481879_572067806322012_1781747679047449028_o.jpgLetícia Brito nascida em Paços de Ferreira, Portugal, a 3 de Dezembro de 1996, como Letícia Isabel Costa Brito. É uma jovem escritora, fotógrafa, redatora e bloguer portuguesa. Formada em Fotografia pela Escola Secundária de Vilela, Paredes (Porto).

“Letícia Brito” é o projeto literário que começou a desenvolver em Junho de 2015, quando decidiu que chegara o momento de partilhar a sua escrita com o mundo.

O LIVRO

Uma história sobre o poder do amor, que tem capa_nos_bracos_vagabundo_ebook (1)a doença do século XXI como pano de fundo. Uma mensagem de superação.

Amar é mais que o encontro entre duas pessoas. Amar é encontrar em outra pessoa o seu coração a bater. É sentir que passa a viver além de seu corpo.

Mas, é quando este sentimento torna-se um ferida a sangrar?

 

Para exemplares autografados e com dedicatória personalizada pela autora devem contactar esta página, ou a página oficial da obra

ISBN
978-989-51-8427-9     Editor de publicações – Chiado Editora
Quer um exemplar? Acesse aqui => Página Oficial

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MEUS COMENTÁRIOS

26e398Acredito que todas as pessoas em algum momento na vida já passaram por situações de profunda tristeza e desespero. Quem nunca passou uma madrugada acordada por causa de amor perdido, que atire a primeira pedra.

Em “Nos Braços do Vagabundo” a escritora Letícia Brito constrói por meio de sua narrativa lírica, uma história que a princípio nos parece familiar. A doce Sofia nos é apresentada como uma jovem mulher a desabrochar para vida e o amor e a provar do doce e do amargo que a vida nos oferece.

Mas, as semelhanças param por ai quando começamos a conhecer a personagem e a entrar em sua mente. Fato esse que se dá a partir de relatos de acontecimentos importantes de sua vida.

A narrativa é construída como se fosse um diário, ora entrecortado com a prosa e lembranças que ela tem da infância e de momentos da vida. É nítida a amargura da personagem através de suas histórias e cartas, todos de momentos conturbados ou de grande sofrimento. É como se ela mesma tentasse buscar uma justificativa para entender a si própria.

A autora cria uma atmosfera muito própria ao brincar com os elementos da narrativa, o tempo psicológico é o mais evidenciado. Também aventura-se através dos estilos e constrói uma estrutura capaz de abrigar um misto de técnicas literárias: prosa, lirismo, fluxo de consciência, diário, jornalístico, etc.

A trama não é cronológica, algo até esperado sendo o tempo da narrativa em grande parte “psicológico”.  Os pensamentos e lembranças são entrecortados por momentos de sua realidade, dos quais temos uma visão totalmente fragmentada.

A temática do livro é de interesse público e de emergência. Casos como o de Sofia acontecem o tempo inteiro ao nosso lado.

Letícia vai revelando aos poucos a trajetória problemática e sutil de uma pessoa que sofre de depressão e que tem consciência de que não tem forças pra vencer sozinha. Em algumas passagens a autora demonstra o quão ciente Sofia era do mal que a acometia, que ela mesma procurava fazer pesquisas sobre o assunto.

Desde sua infância, a moça vive intensas perdas e acumula com o passar do tempo uma tristeza que passa do normal. Ainda muito menina sente a perda do pai e tem sua infância construída ao lado de uma pessoa que lutava para sobreviver a uma doença grave. Na adolescência redescobre o consolo nos braços de Francisco e a partir disso ela perde o controle de sua vida.

O amor a tornou feliz! Mas, a perda desse amor, a perda de seu porto seguro é a gota d’água para fazer seu mundo desabar. E sua vida começa a definhar. Afasta-se das pessoas que a amava, isola-se e apesar de todos lutarem por ela, muitas vezes quem a vence é a angústia que tomava conta de sua vida e de tudo que pensa a partir do “adeus” de sua única esperança de vida, segundo ela.

Não é um livro de muitas páginas, mas exige um olhar atencioso do leitor para juntar os quebra-cabeças que são lançados pelo caminho da leitura e configurar a história em nossas cabeças. Pra mim esse emaranhado de ideias é uma sacada muito contemporânea, pois para que a história tome corpo e sentido é necessário que o leitor interaja com o texto o tempo todo.

O livro é indicado para refletir e talvez nos dê aquela sacudida para que possamos acordar e ver o mundo ao nosso redor. É uma crítica a uma sociedade que está muito ocupada com aparências e o mundo “online” e se esquecendo de olhar os que estão aqui do nosso lado.

 O livro no infere a pensar que talvez se olhássemos alguém de verdade nos olhos e perguntasse “Como vai?” de uma forma mais significativa e acolhedora talvez pudéssemos ser mais útil e ajudar alguém. Geralmente essas saudações são mais textos automáticos do que um interesse em realmente saber como a outra pessoa está.

Tem uma expressão em Inglês que acho bem bacana e que cabe nessa situação – é “in someone’s shoes” que significa mais ou menos dizer que, só posso saber sobre como alguém se sente ou está se usar os sapatos dela, ou seja, se colocar no lugar do outro.

Apesar de ser uma atitude muito louvável, não é tão simples assim se colocar no lugar de alguém. Mas, ter empatia já um grande passo para sair do nosso quadrado.

Existe como saber o que a pessoa está sentindo? Saber exatamente o que ela sente não é tão fácil assim, diria até que não dá… Posso apenas ser solidária e dar acolhimento!

Nenhuma experiência, por mais parecida que esta seja, poderá ser igual à outra. Podemos inferir e buscar compreender, mas jamais se pode dizer que sabe exatamente como o outro se sente. Cada pessoa percebe e sente suas experiências de uma maneira singular e devemos respeitar e apenas dar nosso apoio. E assumir que não sabe o que é que o outro sente é até um ato mais aceitável do que ouvir alguém dizer: “Isso vai passar, não é nada!”

É através desse clima que somos conduzidos, muitas vezes desconfortável, doloroso, outros incomodados com situações, etc

 Li o livro três vezes. Ele chegou às minhas mãos em um momento bastante complicado e de turbulência. Algumas vezes pude compreender o quão difícil é recomeçar ou tentar seguir em frente. É complicado restabelecer nosso psicológico quando muitos fatores que provocam dor e tristeza são vividos numa sequência de pequenos intervalos.

Imagino se já é tão difícil para um adulto lidar com sentimentos de perda como a morte, imagino como essa situação deve ser devastadora na vida de uma criança ou adolescente.

Parabenizo a Letícia por ter sido tão ousada em abordar um tema como esse e peço a ela que por gentileza construa uma história sobre a perspectiva de Francisco. Sinto que não consegui criar uma imagem da personalidade dele e fiquei muito curiosa para ter mais detalhe da história sob outro olhar.

Sofia não é um narrador confiável, uma vez que tudo o que ela sente ou percebe é intensificado ou talvez descontruído pelas nuvens densas de sua negatividade, da tristeza e opressão que sentia o tempo todo.

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By Laynne Cris

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Mãos Livres – Francine S.C. Camargo

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Olá galerinha do wordpress!

Dizem por ai que quem é vivo sempre aparece. Certo? Pois é, e eu estou vivinha da silva, apenas com outras obrigações que tive que dar um olhar mais atencioso.

Faz, acho que meses, que recebi de presente um lindo livro de uma escritora muito querida por todos aqui na blogosfera e acredito que até no Brasil. E estou a falar nada mais nada menos que da Francine S. C. Camargo, a escritora que deixa um pouco de suas doces palavras lá no blog Papo da Fran.

DADOS DO LIVRO

Título – Mãos livres

Autor: Francine S. C. Camargo

Editor – Mayara Facchini

1ª Edição – Editora Chiado

Ano 2016

Sinopse: 

Mãos livres reúne contos e crônicas da autora, com uma escrita poética e fabulizada. As palavras surgem de forma a realçar e tecer a realidade em uma sequência de emoções, narrando eventos inusitados como o encontro com um cão desordeiro, o diálogo de livros na estante e um lugar chamado Aboborolândia, ou passando por temas universais como o amor, a amizade, a maternidade, a morte, a rotina e a timidez, sempre fugindo das explicações comuns; com as mãos livres e desimpedidas, “como se nada pudesse me fazer parar, como se fosse criar garras para lutar. Decerto, deparo com um abismo e aí, estou pronta, prontinha para voar.”

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A Fran é uma daquelas mulheres batalhadoras e com um coração enorme que dá orgulho da gente conhecer e não podia esperar menos de “Mãos livres”.

Mãos livres me fez lembrar muito de um escritor charmoso e muito inteligente que adoro ler – Rubem Alves. Sabe aquela sabedoria da vida, a fala de quem viveu e esteve presente nos momentos que viveu? Então, é essa a sensação que você sente ao ler mão livres.

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Gostei muito de todos os contos, em especial o conto “Mulher, Mulher” e a “Revolução dos livros”. Mas, na verdade gostei de todos… Não é um livro que você lê e se encerra. Este livro tem uma abertura nas entrelinhas e que fica uma voz a lhe falar a qualquer momento que desejar ouvi-la.

Fran, querida! Desculpe-me a demora e fiquei muito lisonjeada com a dedicatória tão linda!

Felicidades mil para você e espero que em breve possa ter a oportunidade de ler outro livro seu.

 

E para o pessoal aqui que visita o blog um grande abraço e eu estou organizando minhas resenhas e minha vida literária. Vida de professor não é fácil…

 

Beijinhos e até a próxima.

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Morte na Mesopotâmia

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Olá gente maravilhosa…

Hoje é o dia da resenha coletiva do Quatro por 4. E no mês de março lemos “Morte na Mesopotâmia da Agatha Christie, grande Agatha!

Em abril será lido “A menina Submersa” da Kiernan, Caitlín R.

É pessoal parece que em abril vamos inundar num clima de suspense pra terror. Nada como dar uma agitadinha no cérebro, não é  mesmo?

Então, fique ligado!  ABRIL -2016.

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Morte na Mesopotâmia é um daqueles suspenses sagazes e que você quer descobrir logo o que irá acontecer. Ao longo da narrativa, os acontecimentos ficam cada vez mais empolgantes e você começa a suspeitar de tudo e de todos, mas apenas um é o culpado, e este se apresentará de um modo um tanto surpreendente, ou não. O que achei muito curioso foi o fato da história ser contada a partir do ponto de vista de uma enfermeira, que não fazia parte da expedição, e que, a meu ver, deixou tudo mais instigante. A leitura é envolvente e fará com que você faça vários questionamentos que serão difundidos com maestria no desfecho.

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Eu nunca tinha lido nenhum livro da Agatha Christie até então e confesso que nunca tive interesse também. Quando o autor é muito idolatrado eu costumo desconfiar da qualidade da obra, mas admito ter gostado da história, apesar de não ser o o meu gênero favorito de leitura.  A história é bem escrita apesar tem uma linguagem bem formal, com palavras um pouco complexas e a leitura não é muito ágil. E começa contando a história da enfermeira Amy, que foi contratada para cuidar de Louise, esposa de um arqueólogo. Subitamente,
Louise é encontrada morta em seu quarto e então começa uma trama intrigante para descobrir quem a havia assassinado. Um detetive é contratado e ele vai fazendo interrogatórios e tentando chegar a alguma conclusão sobre o assassino. Você se prende bastante nessa parte tentando adivinhar e no final se surpreende até, mas as partes com “encheção de linguiça” dão uma desprendida na atenção. Por fim, indico a leitura pelo bom desenvolvimento da trama e do mistério.
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Sou fã incondicional de Agatha Christie. Por incrível que pareça, o último livro dela foi a minha primeira leitura, aos treze anos e não parei mais. Agatha é a rainha do crime e não é para menos. Não só um, mas grandes clássicos têm sua assinatura e eu os convido a ler todos eles sem medo. Confesso que “A Morte na Mesopotâmia” é um bom livro e mesmo sendo bem escrito e  com certa dose de suspense, não chega aos pés de suas grandes obras, o que é compreensível para uma autora de mais de 80 livros escritos.

A linguagem é objetiva, como sempre. O enredo é linear, embora haja certa digressão em meio a trama. Os personagens são bem colocados e o desfecho tem sua lógica. Compararia este livro, para quem leu Agatha Christie, com “A Noite das Bruxas” por ser uma história cativante e criativa, porém mediana.

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Adoro ler Dexter e fui ler Agatha Christie com essa expectativa! Sempre ouvi dizer que ela é a rainha do crime. E penso que de certa forma é algo próximo disso. Pra mim foi uma leitura fluida e rápida, lembrei bastante da minha adolescência, da qual gostava de assistir “As aventuras de Tintin”.

Morte na Mesopotâmia é um livro que pode ser lido por crianças, adolescente e adulto. Possui uma linguagem clara e um enredo bem linear. O livro é narrado em primeira pessoa, neste caso, a enfermeira Amy Leatheran que está a trabalho no Iraque é por obra do destino convidada para acompanhar a Sra. Leidner que aparenta sofrer de alguns sintomas nervosos. Os Leidner estão numa expedição arqueológica com uma equipe de profissionais, todos morando juntos numa sede na cidade de Tell Yarimjah.

Neste lugar um crime acontece. Todos são suspeitos. Todos têm motivos. E um investigador muito carismático (lembra um pouco Sherlock Holmes) está a passar por ali e aceita o desafio. Quem é o assassino?

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Bom Pessoal, é isso! Espero que curtam a dica de leitura. Ler é sempre uma aventura incrível…

 

2016-03-01 (11)

Publicado em Quatro por Quatro | 6 Comentários

Conto – Em busca do lar

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Em busca do lar

Meu nome é Margareth Village, hoje sou uma mulher madura e independente. Tenho 32 anos e vivo sozinha por muito tempo. Durante toda a minha vida pude aprender um pouco sobre o que sou. E tive grandes surpresas no caminho e uma delas foi á de que possuo um enorme buraco no peito. Eu não tenho um coração. Eu não posso sentir nada.

Mas, o que gostaria de registrar aqui não é acerca desse meu autoconhecimento e nem sobre o vazio oculto do meu peito e sim contar a história de como isso aconteceu. Quem sabe alguém que leia esta mensagem saiba algo sobre o meu passado.

Pretendo contar-lhes uma história no mínimo estranha. Uma história do que era pra ser uma família. Uma família diferente. A minha família. Ou qualquer coisa que queiram chamar de um lugar aonde chega uma criança e onde pessoas dividem sobrenomes e um teto.

Muito antes de nascer tive uma experiência importante. Sim, foi antes de estar no mundo, ainda era um feto.  Vivenciei uma experiência que mudaria para sempre o curso da minha vida. Não sei como sei de tudo isso. Mas, sei que recebi um dom ou uma maldição.

Para contar minha história precisarei falar de Ellis Stone. Ellis é o nome da minha mãe. Ela engravidou aos 17 anos de um rapaz que havia conhecido por pouco tempo. Dele, sabia apenas o nome, Joshua alguma coisa. Talvez nunca tenha perguntado ou talvez não soubesse o que aconteceria depois. Devo ter sido concebida em um primeiro e único encontro dos dois.

A família Stone era uma família tradicional e muito religiosa. Talvez ainda seja, faz tempo que não sei nada sobre eles. Mas mencionei isso pelo fato de eles não admitirem pessoas de outra religião ou sem religião como novo membro. Sempre foram muito preconceituosos e muito fechados dentro das suas crenças.

Ellis como toda adolescente se rebelou contra as severas leis impostas pelo seu pai. Ela queria conhecer o mundo, conhecer pessoas e não via problema nenhum nisso. Mal ela sabia que essas leis eram apenas para protegê-la de algo terrível que vivia do lado de fora do seu mundo.

Assim que descobre que Ellis está esperando um bebê, eu, Joshua some sem deixar pistas. Como ela não sabia nada a respeito dele, não tem onde procurar. Ninguém na vila o conhecia. Ninguém sabia nada a respeito de um Joshua e nem de alguém que o conhecia.

Ellis entrou num desespero enorme e se trancou no seu quarto, acometida por uma febre inexplicável, seu corpo seguia desfalecendo dia após dia. Seus pais, amigos da família reuniram-se para descobrir a cura para os males que afligia a filha, pois os remédios e os chás de nada adiantaram para a melhora.

Uma vidente foi chamada. Quando ela entrou na varanda foi possuída por uma sensação poderosa e seu corpo foi tomado por uma força sobrenatural. Ela não consegue passar pela porta da casa. E da varanda a família e os envolvidos tentam expelir o que estava nela chamando por todos os deuses que conheciam e adoravam. Nada parecia funcionar. A coisa permanecia inabalável.

Uma voz rouca e perturbadora saiu da boca da mulher, que embora fosse dona de um corpo franzino pareceu no momento muito maior e muito mais poderoso.

“Tragam-me a garota!” – soa a voz alta e num tom autoritário.

Minha avó aflita tenta impedir que meu avô entregasse minha mãe àquele ser estranho no corpo da pobre vidente. Mas, os olhos do meu avô não responderam ao apelo da vovó. Com os olhos vidrados ele apenas obedeceu à voz e seguiu. Entrou na casa e foi até o quarto onde minha mãe estava convalescendo, e comigo dentro dela girando e dando mil voltas no meu pequeno mundo, fomos trazidas até a coisa na vidente, meu avô puxava minha mãe pelo braço, e ela mal tirava o pé do chão. Ela praticamente parecia flutuar.

Ela caminhou lentamente, o rosto abatido pela febre e pelos enjoos diários fazia com que seu corpo parecesse suspenso por algo invisível. Foi colocada diante da coisa que transfigurava o rosto da senhora a quem possuiu.

Sei que pode parecer loucura, mas eu via através dos olhos de minha mãe e o meu pequeno mundo estremeceu quando a coisa estendeu as mãos e disse severamente: “Essa criança não pode nascer!”. “Quero o sangue dela!”. Os dedos da velha vibravam na direção da minha mãe. Na direção do ventre dela.

Minha mãe tremia e seu corpo não tinha outra reação além dessa. Ela não sentiu medo e nem tristeza, estava dominada por uma força estranha, ela não estava ali. Parecia que tinham sugado a vida dela para algum lugar fora dela. Podia sentir o vazio dentro dela, eu sentia medo, eu sentia desespero, sentia minha vida sendo sugada para um abismo. E eu nem tinha nascido. Mas, eu era a única coisa viva ali naquele corpo naquele momento.

Minha mãe desmaiou e caiu como morta no chão. Ouço um grito estonteante. O grito veio da minha avó. Ela estava iluminada e seus olhos pareciam fogo, ela debruçou sobre minha mãe caída no chão e suas mãos pousaram sobre a barriga dela. E eu senti a pressão de seu toque de onde estava. Ela não estava normal. Nada naquele dia era normal. Mas, eu não sabia o que era normal e nem sabia de nada. Só sentia que tudo aquilo me amedrontava.

Achei que ela quisesse ajudar, salvar a nós duas, mas ela parecia irada, desesperada, transtornada. Descobriu a minha existência, talvez fosse isso que a deixara daquele jeito. Senti um choque percorrer meu pequeno corpo e luzes brilharam ao meu redor. Em minha cabeça coisas giravam e vozes viam por todos os lados enlouquecendo os meus ouvidos. Ela estava com as mãos movendo acima da barriga inerte de minha mãe e podia ouvir a sua voz evocando algumas palavras que não compreendia o significado.

“Vividius, validias, kie la vitta interinius vivieries sinu corazoniuns!”

E de repente sentia que o que medo, o pavor, a dor, a angústia estavam desaparecendo. Não havia mais nada. Ouvia e via as pessoas e não sentia nada. Não importava mais nada. Tudo se aquietou. Tudo pareceu aquém de mim. Não entendi. E por muito tempo fiquei sem entender.

 Nunca soube direito o que houve comigo naquele dia. Nunca entendi o porquê aconteceu tudo aquilo. Minha mãe ficou bem, se é que pode chamar uma morta viva de bem e apesar de ter sido escondida de todos durante todo o resto da gestação – eu nasci.

E de alguma forma muito poderosa lembro-me de tudo desde muito antes de ver a luz do mundo. Existe um mundo inteiro oculto atrás da minha memória que foi ganhando vida conforme fui amadurecendo.

Quando tinha seis anos minha mãe faleceu. Eu não senti nada. Não senti sua falta. Não entendi o que era morrer ou partir. Apenas parei de vê-la. E acostumei a não vê-la sentada no mesmo lugar todos os dias.

Não me contaram o que houve com ela e eu não sabia que tinha que saber de algo. Meus avós e as pessoas que frequentavam as reuniões da casa da minha avó aos sábados demonstravam medo quando eu me aproximava. Ninguém dirigia a palavra diretamente para mim, apenas recebi algumas orientações e ordens de uma tia. Mas, nunca um cuidado que uma criança deveria ter. E só hoje eu dei conta disso. Na época acreditava que era assim que as crianças viviam com suas famílias.

Minha mãe era a única que me olhava, mas seus sentimentos não tinham ação. Ela chorava quase o tempo todo e quando não chorava seu olhar era perdido. Era fraca ou eu achava que ela era. Nunca me disse o porquê estava triste ou me perguntou algo sobre mim e sobre o que fazia. Na verdade nunca ninguém perguntava nada que havia feito se estivesse  nas horas certas em casa, e tudo ficava como deveria ser – a mesma vida de sempre!

E nunca mencionei a ninguém que havia presenciado ou experimentado o que acabei de contar aqui. Vivíamos uma vida reservada, nunca ninguém falava de algo além das coisas do dia a dia. Algo, além disso, era cochichado como segredo pelos cantos.

Cresci sozinha com a multidão de verdades se formando dentro da minha cabeça de uma forma dolorosa. As imagens iam se formavam e eu via coisas e pessoas. A única coisa que não conseguia ver e entender era algo que fosse antes da minha concepção. Mas, nunca ninguém quis falar sobre meu pai ou minha descendência.

Sem alguém para me ensinar, para me livrar de minhas dúvidas, para me orientar; fui seguindo meu caminho fazendo as escolhas que acreditei serem as certas. E quando completei uma idade para viver sozinha dei no pé. A verdade é que a vida sozinha não é muito diferente da que vivia com eles. Sempre fomos estranhos uns aos outros.

E hoje, aqui estou. É muito pouco o que se revelou a mim, creio que ainda preciso encontrar muitas perguntas e respostas sobre muita coisa que tenho até medo de conhecer.

E apesar de não entender o que significa uma família, procuro-a em todos os lugares. Quero encontrar um lugar ao qual eu pertenço ou pertenci. Não sei de onde vim e porque meu coração me foi tirado. Mas, eu gostaria de algum dia sentir que faço parte de alguma coisa, por menor que ela seja.

 Minha avó perdeu a voz depois do que ocorreu no dia em que lançou o feitiço sobre mim e minha mãe, que até hoje não sei se foi uma benção ou maldição. Nunca pude perguntar nada a ela. No fundo de algo que não tenho: um coração; acredito que ela queria me proteger, ao menos tenho esperança de que tenha sido por proteção todo aquele alvoroço e loucura.

Repito meu nome é Margareth. Apenas Margareth para muitos. Mas, isso não é tudo sobre mim. O que veem não é o que sou é apenas a sua impressão do que sou. O que sou ninguém vê e ninguém nunca viu até hoje. E busco desde quando nasci por alguém que possa me ver e encontrar o meu coração, onde quer que ele esteja – neste mundo ou em outro mundo qualquer.

Margareth Village

P.S.: Ia escrever sobre família, e como não sou uma pessoa que tem hábito de fazer textos pessoais, fui tecendo um pequeno conto e deu nisso ai. Era para ter publicado faz tempo, mas ando um pouco atarefada com meus estudos e meu trabalho. Espero que gostem.

Beijos 

L.C

2016-03-13 (4)

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TAG – Viciados em Música (Blogues à Mesa)

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Bom domingo a todos.

Hoje vim responder uma TAG indicada por uma amiga muito querida, a Silvia do blog Reflexões e Angústias. 

A Tag Viciados em Música é um dos desafios de publicações coletivas do grupo “Blogues à Mesa” que participamos no facebook com uma comunidade de blogueiros muito talentosos do Brasil, Portugal e acho que do mundo inteiro. Muito bacana mesmo!

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Então, vou responder agora!

Uma música romântica que gosto!

Chasing Cars – Snow Patrol

Uma música que me define!

The Scientist – ColdPlay

Uma música que não da minha cabeça!

Kiss me – Ed Sheeran

Uma música que faz chorar!

You and me – Lifehouse

Minha música preferida no momento!

Here without you – 3 Doors Down

Uma música que não consigo gostar!

Princess of China – ColdPlay ft. Rihana

Citar uma parte da minha música preferida!

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Minha música nacional favorita!

Aonde quer que eu vá – Paralamas do Sucesso

Abra a playlist e compartilhe a 5ª música!

Canon in D mayor – Johann Pachelbel (versão Piano)

Nomear cinco blogues!

Estou indicando 05 novos blogues que conheci recentemente e que são de conteúdos interessantes, inteligentes e de muito bom gosto! Recomendo.

Aba Morena – Café e Prosa – Visite o blog!

Memórias de um cara qualquer – Visite o blog!

Las Crônicas del Otro mundo – Visite o blog!

Pauta Feminina – Pâmela Rodrigues – Visite o blog!

Nathalia Colt – Visite o blog!

Bom, por hoje é só! Espero que gostem.

Um grande abraço e uma linda tarde de domingo! ❤

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Amigo Secreto 2016 WordPress

2016-03-12 (4)

Hello Pessoal

Fim de Semana de Páscoa e hoje é dia de revelação de Amigo Secreto que rolou entre alguns blogs aqui do wordpress desde o início deste ano. E os blogs participantes são:

 Mayara – Coelho da Lua

 Flávia – De dentro da Cachola

 Nath – Only Secret Dreams

 Gill – Casuísmo

 Silvia – Reflexões e Angústias

 Alex André – Lendo Muito 

 Lucas – Blog do Palhão

 Babi Barreto – Escritora

Juliana Lima – Fabulônica

 Letícia Freitas

E eu fiz uma pequena revelação do meu presente e do meu amigo secreto em vídeo!

Let’s go to see

Feliz Páscoa para todos

Lindo dia e Boas Leituras

Laynne Cris2016-03-01 (5)

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Uma lição de Vida – Filme

2016-03-10 (1)

Hoje quis ocupar esse espaço para compartilhar um filme que assisti ontem depois que cheguei do trabalho. Como profissional da educação e apaixonada pelo que faço eu sempre busco por títulos do gênero. E ontem achei esse na Netflix com o título de “O aluno”, mas no youtube encontrei como “Uma lição de vida” e o original é “The First Grader”.

“Uma lição de vida” é baseado em fatos reais. Kimani Maruge foi o primeiro estudante com mais idade a iniciar na escola primária do Quênia. Sofreu muito preconceito e teve que superar muitos obstáculos para obter o seu direito à Educação.

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Sinopse do Filme

Ano: 2010

País: EUA, Reino Unido, Quénia

Género: Drama

Realização: Justin Chadwick

Elenco: Oliver Litondo, Emily Njoki, Hannah Wacera

Filmado numa aldeia situada numa montanha queniana, o filme conta a notável história verdadeira e edificante de Kimani Maruge, de 84 anos, antigo veterano Mau Mau, uma sociedade secreta que lutava pela descolonização do Quénia. Kimani é homem orgulhoso que está determinado a aproveitar a sua última chance de aprender a ler e escrever, e assim acaba por aderir a uma classe de alunos de seis anos de idade. Juntos, ele e a sua jovem professora, enfrentam resistência, mas ele acaba por descobri uma forma de superar as dores de seu passado…

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Filme – Uma lição de Vida

Considerações

Ao acompanhar a história de Maruge é impossível não se emocionar, é impossível não sentir um aperto no coração ao presenciar toda a luta que ele teve que enfrentar só pra conseguir ter um espaço numa escola para aprender a ler. Mesmo depois da guerra, da opressão, da violência que viveu, de ter sua vida roubada por anos, de ter visto sua família ser assassinada na sua frente. Ele sonha, ele acredita, ele encontra motivos para viver e vai em busca deles. É realmente uma grande lição de vida.

O ser humano foi tão cruel, é tão cruel com as pessoas, julgam, segregam, acusam, excluem, massacram sonhos, humilham, etc.

Entretanto, por mais duro que seja hoje em dia, ainda encontramos um pouco mais de facilidade, de liberdade a escola está com as portas abertas. E o que é mais triste quando refletimos sobre a nossa situação atual tem a ver com a alienação das pessoas, as pessoas jogam seus direitos no lixo quando o ignoram, não fazem bom uso, destroem as escolas, não se interessam por aprender, por ler, por fazer da escola um instrumento para mudar o mudar o mundo.

Temos escolas, temos salas de aulas, não são as melhores do mundo, é verdade. Mas, quem quer aprender, aprende em qualquer lugar.

E com muita frequência o que vemos é a falta de interesse, o número gigante de desculpas que as pessoas arrumam para explicar seus fracassos, desvalorização o conhecimento, muitos apenas vão a escola por ir, ocupam o espaço e não entendem a oportunidade que muitos sofreram e morreram para que elas hoje pudessem usufruir do direito a ler e escrever.

A verdade é simples, quando se quer algo com muita vontade, tudo é possível. Não existe obstáculos, não existe limitações. Você pode ser o que você quiser. Só precisa acordar pra isso!

Abraços e bons estudos

Laynne Cris 

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Terra dos Homens – Antoine de Saint-Exupéry

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SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Terra dos Homens. Tradução e notas de Julia da Rosa Simões; Apresentação Sandra Guimarães. São Paulo: Via Leitura, 2015. (Coleção Saint-Exupéry).

 

Hoje a resenha é da série “Leitura Compartilhada” que faço com a Silvia do Blog Reflexões e Angústias. E este é o nosso terceiro livro – Terra dos Homens do escritor Antoine Saint-Exupéry.

SINOPSE

Neste emocionante relato autobiográfico, do Saara aos 2016-02-27 (9).jpgAndes, episódios da vida de Saint-Exupéry como piloto entre os anos 1926 e 1935 são narrados com riqueza de detalhes, principalmente na época em que prestava serviços à Aéropostale.

Quase sem água e sem comida por catorze dias, o autora e seu mecânico são os principais personagens desta história, que tem como pano de fundo o deserto do Saara e as miragens. Como sobreviver ao calor, sem ter água e qual a falta que esta faz ao corpo?

Terra dos Homens, também conhecido como Vento, areia e estrelas, lida com os laços de amizade, a resignação diante da morte, a persistência, a camaradagem e a solidariedade presentes no ser humano quando em busca de um sentido para a vida.

2016-03-01 (5)

Com descrito na sinopse “Terra dos Homens” é um livro autobiográfico, lançado em 1939 e escrito por sugestão de um colega do escritor, André Gide. Saint-Exupéry narra aqui parte de algumas de suas experiências vividas do Saara ao Andes, demarcando toda sua narrativa com um lirismo e um entusiasmado olhar de um aventureiro apaixonado pelo seu ofício e por escrever.

O livro é dividido por capítulos. São oito capítulos: A linha, Os camaradas, O avião, O avião e o planeta, Oásis, No deserto, No coração do deserto e por fim Os Homens. Sua escrita neste livro segue num estilo de um contador de história, ele divaga, narra fatos que se lembra, expressa seus sentimentos acerca do fato contado, etc.

Pra mim, relato é um tipo de leitura que preciso ler com calma e tentar focar minha atenção, pois a falta de ação torna a leitura um pouco densa e por vezes até dá sono.

Cada capítulo tem suas particularidades e ele tenta seguir uma linearidade, que fica mais perceptível do sexto capítulo em diante. É um texto permeado por impressões do autor, seus valores, suas aprendizagens, sua conduta para com a vida. Portanto, é um convite a refletir. 

Eis, um fragmento do capítulo 02 – “Os camaradas”.

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O tema central do livro são os homens com suas histórias, suas crenças, seus valores, suas escolhas, suas experiências e o resultado de tudo isso na vida e na morte do homem. Quando digo aqui “homem”, refiro-me a humanidade, cada pessoa, cada família, cada cultura, cada ser humano independente de sua etnia, crença ou cultura. 

O livro é provocante, angustiante, conflitante e até um pouco desolador principalmente quando acompanhamos o sofrimento do escrito e de seu mecânico quando ficam perdidos no deserto lutando contra a morte.

Penso que há coisas na vida em que jamais encontraremos respostas, porque acho que não existe uma resposta pronta para algo e cada experiência de uma pessoa é única, somente dela. Mas, podemos ver através da perseverança e da fé de alguns que existe soluções melhores que aceitar uma derrota ou um fim não desejado.

A vida é algo dinâmico e está acontecendo, e por isso tudo pode acontecer dependendo de uma escolha.

É preciso saber esperar…

“[…] É inútil, quando se planta um carvalho, esperar logo poder abrigar-se sob suas folhas.” (pág. 36)

Por se um livro autobiográfico é interessante conhecer o pensamento de um homem que ficou tão famoso por uma obra tão singela, como o livro “O pequeno Príncipe”.  E neste livro ao prosseguir com a leitura de cada relato, podemos ir identificando que o pequeno príncipe, a raposa, a rosa já viviam na mente de Exupéry muito antes de ganhar seus primeiros traços num caderno ou livro.

Outro fato chocante é que o acidente que Exupéry narra é praticamente um presságio do que aconteceria com o autor em 1945, que infelizmente não teve o mesmo final feliz. Parece que o deserto o chamava para si.

Trecho que gostei muito de ler e encontrei essa narração no youtube. Confira!

(página 166)

Recomendo a leitura do livro para reflexão e conhecimento do autor e não como entretenimento.

2016-02-29 (5)

Abraços e boas Leituras

Laynne Cris 

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Coluna Especial – Por Letícia Brito

2016-03-05 (1)

A minha melhor amiga suicidou-se…

Quando descobri que tinha cancro da mama, inicialmente fiquei assustada, pensei no meu sonho de ser mãe, pensei no meu namorado, pensei na minha família, pensei que tudo o que eu havia planeado poderia acabar ali, inclusive a minha carreira e o meu sonho de um dia me tornar uma modelo conceituada e reconhecida a nível internacional, porque o meu país já o tinha conquistado, mas nunca, em momento algum dessa fase tão perturbadora ponderei a morte.

A morte nunca me assustou. Assustava-me tudo o que envolvesse os que amo, assustava-me a possibilidade de precisar abdicar dos meus sonhos e do meu trabalho, assustava-me o futuro. Como eu poderia enfrentar tudo aquilo?

Dos males o menor, a morte é certa, quer tenhamos cancro ou outra doença qualquer, a morte é certa quer aconteça na velhice ou ainda na adolescência. É a única certeza que carregamos connosco desde o momento em que nascemos. Nascemos para morrer. Temos sonhos, objetivos, planos para o futuro, estamos carregados de expetativas e tudo porque? Porque sabemos que um dia iremos morrer, não sabemos quando, mas é a única certeza que temos.

Então definitivamente a morte não me assustava nem um pouco, eu sabia que um dia esse momento chegaria e a morte não é aquele familiar distante que envia mensagem a avisar sempre que está prestes a chegar, a morte não avisa então porque haveria eu de me preocupar com ela.

Quando ela chegasse, estaria na minha hora. Mas e os meus sonhos, a minha carreira, a minha família, o meu namorado, os bebés que desejávamos ter? Isso sim assustava-me! Ter de parar ali, ter de enfrentar o cancro, ter de terminar a minha carreira como modelo, ter de encontrar outro trabalho no qual me sentisse encaixada, ter de planear tudo de novo. Logo eu, que sempre fui tão organizada. Precisaria reorganizar toda a minha vida em função de um problema de saúde.

Quando contei que estava doente senti todos os olhos postos em mim carregados de pena. Isso sim é muito mais perturbador do que a ideia de morrer, quer acreditem, ou não.

Preocupava-me com o meu cabelo, os meus longos cabelos pretos, e se ele caísse? Eu amava o meu cabelo, mas dos males o menor, nada que uma peruca não pudesse resolver.

Dos males, realmente o menor. Pior do que descobrir que tinha cancro, foi receber uma chamada às oito da manha, da mãe da minha melhor amiga. Maldita hora em que acordei para descobrir que ela tinha morrido.

A Patrícia, logo a Patrícia? Como era possível. Ela era saudável, não estava doente, tinha a vida organizada, tinha sonhos, planos, objetivos, tal como eu. Ela estava feliz e tinha-se suicidado?

Espera aí, ela não morreu de cancro, nem de um ataque fulminante, nem de qualquer outra coisa. Ela acabou com a própria vida. Como? Patrícia? Como? Tu estavas tão bem, todos os dias conversávamos, falavas de como o trabalho corria bem, falavas do teu namorado com um brilho nos olhos que causava inveja, falavas dos teus sonhos e mataste?

Qual o espanto de todos ao descobrirem que ela escondia os registos médicos todos, ela suicidou-se e sabem porque? Tinha depressão.

2016-03-05 (2)

Bem, a Patrícia foi pró, nunca chamou a atenção de nenhum de nós, talvez porque os nossos comentários fossem desagradáveis demais, como poderia ela dizer que estava depressiva se todos os amigos criticavam as pessoas depressivas?

“Fulana tal diz que tem depressão, mais uma a querer chamar a atenção”, a Patrícia nunca chamou a atenção, tal como já disse, talvez se ela tivesse chamado mais a nossa atenção, talvez se ela tivesse contado que habitava dentro dela um monstro adormecido, talvez se ela tivesse desabafado as suas dores, só talvez… Nada disto teria acontecido e ela ainda estivesse entre nós e a mãe dela não precisasse encontrá-la dentro de uma banheira a jorrar sangue, com os pulsos cortados, o pescoço cortado…

Mas talvez se ela tivesse dito que estava depressiva, talvez comentássemos em segredo “olha esta agora quer chamar a atenção também”. Então ela guardou para ela, aparentemente saudável, trabalho estável, namoro feliz, família pacata, e uma dor insuportável dentro dela que a ameaçava todos os dias.

E eu com cancro nunca ponderei a morte, nunca pensei na morte, nunca fui assustada pela ideia de que iria morrer mais cedo ou mais tarde e a minha melhor amiga, que sempre esteve bem, matou-se.

O nosso grupo nunca mais foi o mesmo, fomos-nos separando desde então, cada um para seu canto, o tema Patrícia era quase proibido. A pessoa mais alegre do nosso grupo sofria do mal que todos nós julgávamos ser preguiça, a pessoa que fazia de tudo para manter todos com um sorriso desabava sozinha todas as madrugadas.

Depois da morte dela, todos mudamos e com razão não é? Se tivéssemos pensado de outra forma, ajudado, apoiado, cooperado na sua verdadeira felicidade, ela ainda estaria entre nós, talvez tivesse superado a depressão, assim como eu venci o cancro e não precisei de abdicar dos meus sonhos, da minha carreira.

Vocês todos pensam que o cancro é a pior das doenças, pois eu que poderia ter morrido com um cancro da mama, perdi a minha melhor amiga que se suicidou com depressão.

As piores dores não são as do corpo, são as da alma, são as que nos são invisíveis aos olhos.

As piores dores são as que nós mais julgamos. A depressão não é uma piada, é uma doença e se tu fazes piada sobre pessoas depressivas, tal como eu fiz um dia, repensa bem as tuas palavras, não imaginas como hoje é difícil acordar e saber que a pessoa que sempre me apoiou, acabou com a própria vida porque eu e todos os outros, não estávamos lá, não demos importância, não levamos a sério, aquele que é considerado o mal do século 21.

Letícia Brito

P.S.: Uma história baseada em fatos reais. Não julgue. Depressão é coisa séria!

Fique por dentro 

“Depressão não é tristeza”

Acesse: http://drauziovarella.com.br/entrevistas-2/depressao-doenca-que-precida-de-tratamento/

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Fragmento – Cem Anos de Solidão

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Essa eu tinha que compartilhar, rolei de rir! 

Bom dia, está na hora de ir trabalhar!

Bye Bye

 

 

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