Conto – Em busca do lar

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Em busca do lar

Meu nome é Margareth Village, hoje sou uma mulher madura e independente. Tenho 32 anos e vivo sozinha por muito tempo. Durante toda a minha vida pude aprender um pouco sobre o que sou. E tive grandes surpresas no caminho e uma delas foi á de que possuo um enorme buraco no peito. Eu não tenho um coração. Eu não posso sentir nada.

Mas, o que gostaria de registrar aqui não é acerca desse meu autoconhecimento e nem sobre o vazio oculto do meu peito e sim contar a história de como isso aconteceu. Quem sabe alguém que leia esta mensagem saiba algo sobre o meu passado.

Pretendo contar-lhes uma história no mínimo estranha. Uma história do que era pra ser uma família. Uma família diferente. A minha família. Ou qualquer coisa que queiram chamar de um lugar aonde chega uma criança e onde pessoas dividem sobrenomes e um teto.

Muito antes de nascer tive uma experiência importante. Sim, foi antes de estar no mundo, ainda era um feto.  Vivenciei uma experiência que mudaria para sempre o curso da minha vida. Não sei como sei de tudo isso. Mas, sei que recebi um dom ou uma maldição.

Para contar minha história precisarei falar de Ellis Stone. Ellis é o nome da minha mãe. Ela engravidou aos 17 anos de um rapaz que havia conhecido por pouco tempo. Dele, sabia apenas o nome, Joshua alguma coisa. Talvez nunca tenha perguntado ou talvez não soubesse o que aconteceria depois. Devo ter sido concebida em um primeiro e único encontro dos dois.

A família Stone era uma família tradicional e muito religiosa. Talvez ainda seja, faz tempo que não sei nada sobre eles. Mas mencionei isso pelo fato de eles não admitirem pessoas de outra religião ou sem religião como novo membro. Sempre foram muito preconceituosos e muito fechados dentro das suas crenças.

Ellis como toda adolescente se rebelou contra as severas leis impostas pelo seu pai. Ela queria conhecer o mundo, conhecer pessoas e não via problema nenhum nisso. Mal ela sabia que essas leis eram apenas para protegê-la de algo terrível que vivia do lado de fora do seu mundo.

Assim que descobre que Ellis está esperando um bebê, eu, Joshua some sem deixar pistas. Como ela não sabia nada a respeito dele, não tem onde procurar. Ninguém na vila o conhecia. Ninguém sabia nada a respeito de um Joshua e nem de alguém que o conhecia.

Ellis entrou num desespero enorme e se trancou no seu quarto, acometida por uma febre inexplicável, seu corpo seguia desfalecendo dia após dia. Seus pais, amigos da família reuniram-se para descobrir a cura para os males que afligia a filha, pois os remédios e os chás de nada adiantaram para a melhora.

Uma vidente foi chamada. Quando ela entrou na varanda foi possuída por uma sensação poderosa e seu corpo foi tomado por uma força sobrenatural. Ela não consegue passar pela porta da casa. E da varanda a família e os envolvidos tentam expelir o que estava nela chamando por todos os deuses que conheciam e adoravam. Nada parecia funcionar. A coisa permanecia inabalável.

Uma voz rouca e perturbadora saiu da boca da mulher, que embora fosse dona de um corpo franzino pareceu no momento muito maior e muito mais poderoso.

“Tragam-me a garota!” – soa a voz alta e num tom autoritário.

Minha avó aflita tenta impedir que meu avô entregasse minha mãe àquele ser estranho no corpo da pobre vidente. Mas, os olhos do meu avô não responderam ao apelo da vovó. Com os olhos vidrados ele apenas obedeceu à voz e seguiu. Entrou na casa e foi até o quarto onde minha mãe estava convalescendo, e comigo dentro dela girando e dando mil voltas no meu pequeno mundo, fomos trazidas até a coisa na vidente, meu avô puxava minha mãe pelo braço, e ela mal tirava o pé do chão. Ela praticamente parecia flutuar.

Ela caminhou lentamente, o rosto abatido pela febre e pelos enjoos diários fazia com que seu corpo parecesse suspenso por algo invisível. Foi colocada diante da coisa que transfigurava o rosto da senhora a quem possuiu.

Sei que pode parecer loucura, mas eu via através dos olhos de minha mãe e o meu pequeno mundo estremeceu quando a coisa estendeu as mãos e disse severamente: “Essa criança não pode nascer!”. “Quero o sangue dela!”. Os dedos da velha vibravam na direção da minha mãe. Na direção do ventre dela.

Minha mãe tremia e seu corpo não tinha outra reação além dessa. Ela não sentiu medo e nem tristeza, estava dominada por uma força estranha, ela não estava ali. Parecia que tinham sugado a vida dela para algum lugar fora dela. Podia sentir o vazio dentro dela, eu sentia medo, eu sentia desespero, sentia minha vida sendo sugada para um abismo. E eu nem tinha nascido. Mas, eu era a única coisa viva ali naquele corpo naquele momento.

Minha mãe desmaiou e caiu como morta no chão. Ouço um grito estonteante. O grito veio da minha avó. Ela estava iluminada e seus olhos pareciam fogo, ela debruçou sobre minha mãe caída no chão e suas mãos pousaram sobre a barriga dela. E eu senti a pressão de seu toque de onde estava. Ela não estava normal. Nada naquele dia era normal. Mas, eu não sabia o que era normal e nem sabia de nada. Só sentia que tudo aquilo me amedrontava.

Achei que ela quisesse ajudar, salvar a nós duas, mas ela parecia irada, desesperada, transtornada. Descobriu a minha existência, talvez fosse isso que a deixara daquele jeito. Senti um choque percorrer meu pequeno corpo e luzes brilharam ao meu redor. Em minha cabeça coisas giravam e vozes viam por todos os lados enlouquecendo os meus ouvidos. Ela estava com as mãos movendo acima da barriga inerte de minha mãe e podia ouvir a sua voz evocando algumas palavras que não compreendia o significado.

“Vividius, validias, kie la vitta interinius vivieries sinu corazoniuns!”

E de repente sentia que o que medo, o pavor, a dor, a angústia estavam desaparecendo. Não havia mais nada. Ouvia e via as pessoas e não sentia nada. Não importava mais nada. Tudo se aquietou. Tudo pareceu aquém de mim. Não entendi. E por muito tempo fiquei sem entender.

 Nunca soube direito o que houve comigo naquele dia. Nunca entendi o porquê aconteceu tudo aquilo. Minha mãe ficou bem, se é que pode chamar uma morta viva de bem e apesar de ter sido escondida de todos durante todo o resto da gestação – eu nasci.

E de alguma forma muito poderosa lembro-me de tudo desde muito antes de ver a luz do mundo. Existe um mundo inteiro oculto atrás da minha memória que foi ganhando vida conforme fui amadurecendo.

Quando tinha seis anos minha mãe faleceu. Eu não senti nada. Não senti sua falta. Não entendi o que era morrer ou partir. Apenas parei de vê-la. E acostumei a não vê-la sentada no mesmo lugar todos os dias.

Não me contaram o que houve com ela e eu não sabia que tinha que saber de algo. Meus avós e as pessoas que frequentavam as reuniões da casa da minha avó aos sábados demonstravam medo quando eu me aproximava. Ninguém dirigia a palavra diretamente para mim, apenas recebi algumas orientações e ordens de uma tia. Mas, nunca um cuidado que uma criança deveria ter. E só hoje eu dei conta disso. Na época acreditava que era assim que as crianças viviam com suas famílias.

Minha mãe era a única que me olhava, mas seus sentimentos não tinham ação. Ela chorava quase o tempo todo e quando não chorava seu olhar era perdido. Era fraca ou eu achava que ela era. Nunca me disse o porquê estava triste ou me perguntou algo sobre mim e sobre o que fazia. Na verdade nunca ninguém perguntava nada que havia feito se estivesse  nas horas certas em casa, e tudo ficava como deveria ser – a mesma vida de sempre!

E nunca mencionei a ninguém que havia presenciado ou experimentado o que acabei de contar aqui. Vivíamos uma vida reservada, nunca ninguém falava de algo além das coisas do dia a dia. Algo, além disso, era cochichado como segredo pelos cantos.

Cresci sozinha com a multidão de verdades se formando dentro da minha cabeça de uma forma dolorosa. As imagens iam se formavam e eu via coisas e pessoas. A única coisa que não conseguia ver e entender era algo que fosse antes da minha concepção. Mas, nunca ninguém quis falar sobre meu pai ou minha descendência.

Sem alguém para me ensinar, para me livrar de minhas dúvidas, para me orientar; fui seguindo meu caminho fazendo as escolhas que acreditei serem as certas. E quando completei uma idade para viver sozinha dei no pé. A verdade é que a vida sozinha não é muito diferente da que vivia com eles. Sempre fomos estranhos uns aos outros.

E hoje, aqui estou. É muito pouco o que se revelou a mim, creio que ainda preciso encontrar muitas perguntas e respostas sobre muita coisa que tenho até medo de conhecer.

E apesar de não entender o que significa uma família, procuro-a em todos os lugares. Quero encontrar um lugar ao qual eu pertenço ou pertenci. Não sei de onde vim e porque meu coração me foi tirado. Mas, eu gostaria de algum dia sentir que faço parte de alguma coisa, por menor que ela seja.

 Minha avó perdeu a voz depois do que ocorreu no dia em que lançou o feitiço sobre mim e minha mãe, que até hoje não sei se foi uma benção ou maldição. Nunca pude perguntar nada a ela. No fundo de algo que não tenho: um coração; acredito que ela queria me proteger, ao menos tenho esperança de que tenha sido por proteção todo aquele alvoroço e loucura.

Repito meu nome é Margareth. Apenas Margareth para muitos. Mas, isso não é tudo sobre mim. O que veem não é o que sou é apenas a sua impressão do que sou. O que sou ninguém vê e ninguém nunca viu até hoje. E busco desde quando nasci por alguém que possa me ver e encontrar o meu coração, onde quer que ele esteja – neste mundo ou em outro mundo qualquer.

Margareth Village

P.S.: Ia escrever sobre família, e como não sou uma pessoa que tem hábito de fazer textos pessoais, fui tecendo um pequeno conto e deu nisso ai. Era para ter publicado faz tempo, mas ando um pouco atarefada com meus estudos e meu trabalho. Espero que gostem.

Beijos 

L.C

2016-03-13 (4)

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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