A filha do Louco – De Megan Shepherd

A filha do Louco

A filha do Louco

A filha do louco

SHEPHERD, Megan. A filha do Louco. Tradução de Ivar Panazzolo Junior. Ribeirão Preto, São Paulo: Novo Conceito, 2014.

“Não havia ninguém lá. Mas ele deixara algumas pegadas molhadas nas tábuas envergadas da varanda, ao redor das minhas próprias pegadas ensanguentadas. Agachei-me para estudar a pegada mais próxima da porta. Era muito maior do que a minha. Ele estava descalço, o que era estranho. Ainda mais estranho era o número de dedos em seus pés.” (SHEPHERD, 2014, p. 192)

Escrever essa resenha me custou certo tempo de preparo, e uma análise mais apurada de alguns fatores importantes de uma leitura. Fatores esses que julgo ser minha briga em tentar contornar a influência dos meus interesses, dos meus gostos, meus preconceitos e minha suave irritação com romances bobinhos (isso não quer dizer que julgo que precise de cenas sexuais ou algo do gênero. Mas, romances que contenham uma construção fraca e com diálogos pouco trabalhados), que influenciam o avanço da leitura.

O que seria isso? É a minha tentativa de ser imparcial e dar uma chance ao livro e aprender gostar de novos estilos de escrita ou novos gêneros. De início minha leitura foi bastante arrastada e senti grande dificuldade em me afeiçoar á ela. Mas, tinha acabado de ler duas grandes obras, de autores que amo muito – Jane Austen e Machado de Assis. E, creio que qualquer outro texto fica em desvantagem perto de grandes escritores como estes e que aprecio.

Após esta adaptação e contextualização com o livro, venci minhas barreiras com sucesso e pude aproveitar bem da leitura.

Bom, vamos á história. De pronto posso dizer que, para mim essa foi uma leitura razoável, nem odiei e nem gostei muito. Mas, na soma de tudo tive um bom aproveitamento e acredito que a autora atingiu o objetivo e o público do qual o livro é destinado (acredito que se enquadra num público jovens-adultos). Algumas coisas me incomodaram e as direi no desenvolver desse meu relato.

Sobre a história no geral

Iniciamos a leitura adentrando os corredores de um hospital escola (King’s College – antigo colégio superior fundado por George IV e o Duque de Wellington em 1829) dos finais do século XIX ou início do século XX, a data não fica muito clara e em nenhum momento é declarada. Só identifico o período devido ao cenário e a descrição dos locais, do comportamento dos personagens, dos costumes, do estilo de sociedade ao qual a narradora descreve, por exemplo, pelo uso ainda de carruagens e o estilo das roupas.

Posso declarar aqui a primeira coisa que me incomoda ao ler uma história que retrata uma época diferente da nossa atual. Os diálogos e algumas atitudes das personagens são muito contemporâneos e não combinam em nada com o que se conhece sobre a vida e os costumes no final do século XIX ou início do século XX. Pra mim é necessário incorporar totalmente o clima e as características da época ao qual se pretende ter como pano de fundo para uma completa credibilidade na história.

A narrativa é através de um personagem narrador, ou seja, nossa personagem principal, a Juliet Moreau, é quem está a contar a história. E começamos a acompanhá-la já quando se encontra “órfã” e totalmente a mercê de uma vida miserável em que tenta sobreviver diante dos preconceitos e humilhações que a sociedade inglesa de sua época a impõe e sofre com a incerteza do que aconteceu com seu pai. Seria ele um louco ou alguém caluniado pela perseguição de invejosos?

Juliet é filha do médico Henri Moreau, um fisiologista, que foi dado como morto e expulso da instituição médica por experimentos proibidos e cruéis com animais (vivisseção – dissecação ou operação cirúrgica em animais vivos). A reputação do pai leva a família á falência e na época dos acontecimentos ele desaparece e deixa mãe e filha sem absolutamente nada.

A história é dividida em dois lugares, um começo em Londres e depois numa Ilha no Pacífico Sul. Em Londres Juliet conta com a amizade de Lucy. A única amiga que sobrou de sua antiga vida e que se encontram as escondidas, pois manter uma amizade com Juliet seria uma vergonha para qualquer família inglesa.

Lucy acredita que pode ajudar a amiga a sair dessa vida de miséria, e acredita que a única saída para isso seria Juliet arrumar um bom casamento. Com esse objetivo um dia Juliet acompanha a amiga em uma reuniãozinha de um grupo de estudantes de medicina. Nossa protagonista conhece Adam e sente um pequeno interesse por ele e ele por ela. O grupo se envereda numa pequena brincadeira, que é invadir á noite o King’s College, local em que Juliet conhece muito bem.

Essa aventura dá a Juliet uma pista sobre o paradeiro de seu pai e sobre si mesma (ela entra num conflito de identidade) e a partir disso inicia-se uma narrativa mais cheia de ação. Ela está com 16 anos e quer saber o que de fato aconteceu com seu pai quando tinha apenas 10 anos.

Tem vários aspectos que gostaria de expor e por isso achei melhor dividir e pontuar alguns fatos para que não fique um texto confuso.

Sobre Juliet Moreau

É uma moça de 16 anos, que desde os 10 anos de idade que foi abandonada pelo pai e viveu com sua mãe de uma maneira muito precária. Sua mãe morre após ter chegado à decadência da dignidade humana, pois segundo Juliet, a mãe era uma dama (mulher com boa educação, bons modo, nobre, etc) da sociedade e teve que vender o próprio corpo para garantir a sobrevivência de ambas.

A morte da mãe é o fim de qualquer oportunidade que Juliet poderia ter para restabelecer sua vida em Londres. Precisou arrumar um emprego para conseguir manter um pequeno quarto alugado e algum dinheiro para não passar fome. Trabalhando como faxineira no hospital King’s College,  que consegue por indicação de um antigo conhecido de seu pai, que se apiedou da situação da moça. E como ela era filha do médico expulso daquela universidade, o único cargo que lhe deram foi o de limpar a sujeira e os cantos mais escuros das alas de pesquisa médica.

Um fato que me incomoda bastante é a personalidade de Juliet. Em nada combina com a de uma moça educada no início do século XX, mesmo ela afirmando não ser uma dama.  Somando os traumas e a vida precária que ela vive fico imaginando que suas atitudes, pensamentos e comportamentos são bem superficiais e inconstantes. Mas, enquanto tenho essa impressão prefiro acreditar que a autora explicará isso no final. E digamos que até temos uma explicação, meio surreal (o livro todo é uma mistura de ficção científica e com fatos muito ilógicos, totalmente surreais), mas aceitável e combina com a história.

Outro ponto que em minha opinião dá uma empobrecida na narrativa são as reações muito fáceis que Juliet têm diante dos rapazes com quem convive. Qualquer coisa que se referisse aos moços, ela já sentia o corpo aquecer, sentia formigamento e tal… (risos).

Acredita que ama um e vive de olho no outro, ou seja, tem atração pelos dois, isso sem contar na atração que teve por Adam no primeiro capítulo e teria tido por outro se existisse algum homem além dos dois na ilha. Mas, como ela esta vivendo o apogeu de seus hormônios e está completamente sozinha e num clima de medo e suspense, relevamos estes deslizes.

Por falar nisso, é preciso mencionar então, os personagens que contracenam com ela, Montgomery e Edward. O clima de romance que a autora cria para esse triângulo amoroso não chega a convencer e não emociona também. Como enfatizei a inconstância e os sentimentos que Juliet demonstra não chega a cativar minha atenção, na verdade, me deu nojo e irritação em determinados momentos. E ás vezes o clima na história está tão dramático, perigoso e intenso que não combina com os pensamentos eróticos, sensuais ou românticos.

Sobre Montgomery

Montgomery é um rapaz que foi para Juliet um companheiro de infância. Criado na mesma casa que ela. Filho de uma criada e um ajudante fiel de seu pai e que foi um companheiro para ela nos seus primeiros 10 anos. Inclusive o conhecimento que ela tem sobre medicina e literatura é devido aos ensinamentos que Montgomery lhe dava as escondidas. E quando houve o escândalo, ele some com o médico, Dr. Moreau. Como eles se reencontram, isso vou deixar pra quem quiser ler o livro.

Juliet o descreve como bonito, olhos claros (azuis), forte e atraente, cabelos longos, postura meio desajeitado, mas muito educado e respeitador. Ela sente que gosta mais dele do que o sentimento inocente de amigos de infância. O reencontro deles é permeado por um frenesi bem intenso da garota, ela pira no corpinho do rapaz… rs

Através da narrativa percebe-se que Montgomery nutre algum sentimento por Juliet, mas como tudo é o ponto de vista dela, então fica meio que aquela dúvida se não são apenas impressões dela.

Sobre Edward

Edward é resgatado pela embarcação que segue com destino á uma Ilha no Pacífico Sul.  Ele é encontrado em um bote entre a vida e a morte depois de ficar mais de 20 dias a deriva no mar. O Curitiba (nome do navio) o avista e contra a vontade do capitão ele é resgatado e cuidado por Montgomery (que é médico também) e se torna um alvo protegido e admirado de Juliet.

A viagem é o regresso de Montgomery á Ilha, que estava na Inglaterra a pedido do pai de Juliet, ao qual essa devido aos agravamentos de uma situação vivida no King’s College e sua necessidade de conhecer o que realmente acontecera ao pai, ela insiste com Montgomery para ir junto nesta viagem. Não é spoiler dizer que ela descobre que o pai está vivo e vive nesta ilha desde que saiu da Inglaterra, está informação está na sinopse do livro.

Passam mais de um mês no mar e Edward é resgatado já quando estão próximos da Ilha. Juliet conversa com Montgomery e o convence que devem levar Edward com os dois para a ilha. Ela teme que o capitão do navio possa matá-lo assim que desembarcarem por não ter serventia alguma pra ele. O que é uma verdade, o capitão nem o teria tirado do mar.

Um suspense e mistério ronda a história que Edward conta sobre si, seu destino e sua origem, mas Juliet sente algum tipo de afinidade com ele, devido ela mesma ter alguns segredos que procura manter só para si.

A ilha

O livro tem sua história ancorada num clássico de H.G. Wells, livro de ficção de nome, “A ilha do Dr. Moreau”, que entrou por curiosidade na minha lista de leituras para esse ano ainda.  A filha do Louco, li sem a influência deste, mas após a leitura fiz toda uma pesquisa sobre a história do livro e sobre o autor deste livro, para compreender qual é a influência que Shepherd lançou mão para escrever o seu.

Logo de início pensei se tratar de uma “fanfic”, pois essa história também tem um filme (link no final da leitura do filme), de mesmo nome do livro, e que ao assistir pude enxergar que a descrição que a autora faz sobre a ilha e seus habitantes “os ilhéus” – criaturas híbridas são iguais ao do livro e do filme.

Li também alguns resenhas (link no final da página das melhores resenhas que li) sobre “A ilha do Dr. Moreau” e descobri que não é só o nome do doutor, das criaturas e o cenário da ilha que a autora manteve em sua trama. Montgomery também foi criado baseado no personagem de H.G. Wells, tem inclusive o mesmo nome e a mesma função. Ah, e temos também um naufrago que chega a ilha por acaso no livro de Wells.

Então, só posso acreditar que Shephered quis dar uma continuação para a história de Wells criando “A filha do Louco”.

Trata-se de uma mistura de ficção científica e horror, depois do 11º capítulo, os personagens desembarcam na ilha e muitas coisas estranhas são apresentadas e um clima de suspense e medo envolve toda a trama.

Na ilha Juliet muda totalmente o comportamento e se torna mais falante e assume seu papel de filha abandonada e ressentida. O pai (o doutor) é sarcástico, meio louco e bastante metódico, no entanto procura tratá-la como filha e tenta proporcionar boas acomodações e demonstra que quer que Juliet se sinta confortável apesar das dificuldades enfrentadas no local.

Com relação á descrição dos habitantes da ilha, vemos então a semelhança e acontecimentos tais como no filme “A ilha do Dr. Moreau”, inclusive aconselho assistir para melhor imaginar os personagens, que tem horas que é difícil montar a ideia de algumas criaturas.

O doutor é uma espécie de “Deus” na ilha e faz suas experimentações modificando geneticamente alguns animais. Suas criaturas são uma tentativa de criar homens a partir da mistura de diversos animais e essas criaturas mantêm alguns mandamentos e o recitam em alguns momentos de maneira meio robótica.

O mistério todo aumenta quando uma dessas criações se volta contra seu criador, o “Monstro”. Mortes começam a aparecer com frequências, a ilha está cada vez mais perigosa e o forte usado como habitação pelo doutor e seus convidados também não representa mais a segurança que deveria ter.

Aqui a narração ganha bastante ação. Juliet faz descobertas que a deixam chocadas e traumatizada, ela foge para a selva da ilha, vive horrores e momentos bem tensos. Se sente o tempo todo perseguida por algo que não consegue identificar. Em alguns instantes desta aventura ela conta com a companhia de Edward, que aparentemente quer protegê-la, e de fraco e doente, o moço passa a demonstrar força e coragem, algo que também gera uma curiosidade e me fez levantar a sobrancelhas, tipo – O que? É o mesmo Edward?

Irritantemente os personagens se perdem constantemente uns dos outros e acontecem tantas coisas que ficam sem explicação que pensei que talvez a autora não fosse dar conta de explicar tudo até o final. Mas, por incrível que pareça ela consegue antes de terminar o livro fazer com que todas as interrogações durante a narração fiquem bem esclarecidas. Mas, como tudo nesta história tem uma pitada de fantasia e irrealidade, as explicações tendem por esse caminho.

O romance entre os personagens é a parte deslocada do livro, o enredo e os suspenses fazem a leitura valer a pena, pois nos mantêm curiosos para saber o que vai acontecer. Apesar de ter o cenário, os personagens e alguns acontecimentos “emprestados” do livro de Wells dá pra dá um desconto e aproveitar a leitura.

O livro é uma dicotomia entre Educação e Natureza e uma crítica à prática desumana do uso de animais para as experiências científicas. O doutor além de louco acredita que pode criar um ser humano melhor e que pode através da manipulação dos aspectos biológicos, psicológicos e sociais possa inibir a maldade humana, apesar de provocar a maior maldade que o homem é capaz, provocar a dor e o horror em criaturas que não consegue se defender.

Mas, com o desenrolar da história vemos que o mundo utópico do Dr. Moreau é bem mais frágil do que ele acredita. Na verdade ninguém o convence de que ele falhou e que não pode brincar de ser “deus”.

E a história continua pessoal! Mas, vamos ter que esperar o lançamento da continuação aqui no Brasil, que não consegui encontrar nenhuma notícia ainda.

Espero que gostem da resenha e possam ler o livro. Eu recomendo. Abaixo alguns links citados no texto.

Resenha – A ilha do Dr. Moreau (por Tatiana Feltrin)

https://www.youtube.com/watch?v=6u74xvHDASQ

Filme – A ilha do Dr. Moreau

https://www.youtube.com/watch?v=xHt87q2YlWo

Resenha – A ilha do Dr. Moreau

http://resumodopera.blogspot.com.br/2014/10/resenha-ilha-do-dr-moreau.html

Resenha – A ilha do Dr. Moreau (Por Eduarda Menezes)

https://www.youtube.com/watch?v=qEuqFGzqW8Y

Até mais e boas leituras

Laynne Cris

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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