Mais um clássico de Jane Austen – “EMMA”

“Se eu amasse você menos, seria capaz de falar mais sobre isso. Mas você sabe como eu sou. Você não ouvirá de mim nada senão a verdade.

AUSTEN, Jane, 1775-1817. Emma. Tradução e notas de Adriana Sales Zardini. São Paulo: Martin Claret, 2012. (Coleção Jane Austen, vol.4)

NOTA: Desculpem o texto longo. Mas, impossível conter a emoção e as palavras não param de pular para o papel. Eu simplesmente não me canso.

Impossível para uma leitora apaixonada por Jane Austen, como eu, não conseguir gostar de um livro escrito por ela. Mesmo quando se tem certa implicância com algum personagem ou outro, é porque ela é capaz de construir como ninguém uma personalidade tão verdadeira em seus personagens que quase acreditamos que são eles reais e não meros personagens de uma ficção. Outra característica que adoro muito é o como ela retrata a cultura, os costumes e a sociedade de sua época num tom de sátira e uma sutil crítica que é possível recriar a Inglaterra de sua época.

Na contracapa deste livro há uma citação em que Jane ao fazer um comentário sobre Emma, ela menciona: “Emma é o tipo de heroína que ninguém, além de mim vai gostar muito”. Bom, esse é um motivo a mais que te faz ir ao livro com uma maior curiosidade para conhecer e tirar as próprias conclusões sobre nossa personagem e a história.  Bom, então contarei um pouco sobre o que achei da Emma e do povoado de Highbury.

Emma Woodhouse é uma garota que está beirando seus 21 anos, perdeu a mãe ainda criança e vive na mansão de Hartfield mais o seu amoroso pai e sua confidente e amiga Miss Taylor, a governanta. Cercada por uma vida prospera e tranquila, Emma acredita que é possuidora de uma enorme intuição a respeito das pessoas. Ela acredita que consegue conhecer o caráter das pessoas e pode assim “ajudá-las” a serem melhor. Essa é a parte esnobe dela, por outro lado é uma moça inteligente, alegre, doce e muito amável. Cuida de seu pai com bastante carinho e da casa com muita dedicação, pois é ela desde menina a Srta de Hartfield e tem como filosofia não se casar. O pai é um hipocondríaco sem limite, então tudo o que é assunto para ele são acerca dos remédios e situações que podem tornar-se um perigo para a saúde, o que torna divertido as cenas em que ele está.

A história começa com o casamento de Miss Taylor com o Sr. Weston, casamento esse que Emma acredita que foi obra sua. Pois ela jura que se não fosse por suas intromissões o casal jamais teria chegado ao altar. O Sr. Woodhouse fica imensamente amargurado em perder a companhia da agora Sra. Weston (a Miss Taylor) e temos vários diálogos engraçados sobre essa situação que se prolonga por toda a história, pois o Sr. Woodhouse não se recupera fácil dos “traumas” vividos.

Emma também sente muito a falta da Sra. Weston que agora vai morar na mansão Randalls com o esposo e apesar de sempre estarem juntas não parece ser a mesma coisa. Então, a nossa protagonista se sente tentada a encontrar mais uma alma para que possa ajudar.

Em contrapartida com toda essa irreverência, egocentrismo e muita vaidade de Emma, temos o Sr. Knightley que é amigo da família e seu irmão Jonh é casado com a irmã de Emma, Isabella, e por ser parte da família é o único que diz a Emma o quanto discorda com seu comportamento e pensamentos. Os diálogos entre os dois são extremamente inteligentes, sarcástico e de muito bom humor. Apesar do Sr. Knightley ser muito rude às vezes com ela, nota-se que ele apenas tem um cuidado e gosta muito dela. O Sr. Knightley é bem mais velho que ela (16 anos), demonstra ser um homem muito elegante, bonito, inteligente e de bom caráter.

Conforme avançamos na história e começamos a conhecer melhor Emma, ora gosta-se e ora a odeia. Gosta porque ela é uma mulher muito cordial, inteligente, culta e tem uma postura agradável diante das conversas, por outro lado ela é esnobe, arrogante e se sente superior demais aos outros, e isso pra quem vive no século XXI é um enorme defeito. Mas, conforme vai conhecendo as personagens e os costumes se nota que faz parte da cultura daquela sociedade e que a diferença de classe é algo muito mais acentuado entre os senhores de propriedades que vivem de renda e que possuem uma herança de nome e dos que trabalham com o comércio e vão emergindo em posses.

Boa parte da dedicação de Emma é tentar ajudar Harriet Smith a se elevar na sociedade. Uma moça de bom coração, mal nascida e não tão inteligente. Emma quer moldar os modos da moça para que ela possa ter um bom casamento. E um dos pretendentes é o Sr. Elton, um jovem rapaz que é pároco de Highbury. A mente fértil de Emma a faz acreditar que está conseguindo fazer com que os olhos do pastor contemplem Harriet e enquanto isso o leitor pode perceber o quanto ela está enganada com suas hipóteses. Mas, tudo acaba dando errado, e é muito engraçada toda a conversa e tentativas para tentar prover uma solução para o caso. Emma fica totalmente sentida por ter colocado a moça nessa situação, principalmente por tê-la feito recusar um casamento com o Sr. Martin por ser apenas um medíocre e rude fazendeiro, algo também que é totalmente repreendida pelo Sr. Kinghtley, que chega a declarar o quanto essa amizade das duas fará mal para ambas.

Emma até pensa em desistir de tudo, mas sua mente juvenil e fértil não lhe deixa muito tranquila. As coisas em Highbury se agitam com a chegada do filho do primeiro casamento do Sr. Weston e de uma moça órfã que Emma morre de ciúmes, a sobrinha da Srta Bates, Jane Fairfax.

Eu, particularmente logo me afeiçoo a Jane Fairfax, percebo através da narrativa que a moça parece sofrer com algo, é simples, fala pouco, o que a difere de forma gigantesca das demais pessoas. Mas, para Emma  a moça está apenas de implicância e tem um comportamento esnobe por ter vivido tanto tempo longe com famílias muito mais abastadas e mais cultas e garante que ela se sente superior as pessoas de Highbury.

Frank Churchill (o filho do Sr. Weston) que consegue finalmente passar uma temporada em Highbury parece cair de amores por Emma, e ela fica totalmente envaidecida com a forma como o moço a elogia em público e encoraja o comportamento dele. O comportamento dos dois irrita bastante o Sr. Kinghtley e acaba sendo o pivô de algumas discussões entre os dois e ocorrem atritos entre alguns moradores durante um passeio a Box Hill.

Neste núcleo também está incluída uma ilustre figura, que chega bem depois em Highbury e  que passei a odiar assim que ela abre a boca. Vou contar um pouco o que aconteceu pra poder inserir tal senhora neste comentário de uma forma mais contextualizada.

O Sr. Elton depois de um episódio ruim para ele (não vou dizer o que é para não dar spoiller) decide fazer uma viagem para Bath. Passado uns dias que ele está em Bath, o povo recebe notícias que ele está noivo e que voltará para o povoado casado muito em breve.

A notícia cai como bomba para Harriet e Emma se sente muito mal por ter influenciado a amiga a se interessar pelo pastor. Emma descobre que todas as desconfianças e conselhos do Sr. Kinghtley sobre o pastor estão correta e com muita dificuldade percebe o quanto estava sendo infantil e errada, que realmente o Sr. Elton estava bem inclinado a fazer um casamento por conveniência (embora essa conduta na época é muito comum, casamento é mais visto como um meio de obter uma boa renda do que um relacionamento).

Então, chega á famosa Sra. Elton. Totalmente esnobe e cheia de si. Acredita ser uma pessoa muito mais evoluída e culta do que todas as pessoas e seus diálogos são carregados de prepotência e mediocridade. Ela irrita dos pés a cabeça ao sempre fazer comparações dizendo que as coisas em Maple Grove e bla, bla, bla… só lendo pra entender o como essa mulher é odiosa. Emma a odeia com todas as forças, embora sua educação faça com que a trate sempre de maneira cordial e educada a jovem Sra. Elton.

“O Senhor ficará assombrado ao ouvir como meu cunhado praticamente voa quando faz esses percursos longos. Talvez nem vá acreditar em mim, mas duas vezes por semana ele e o sr. Bragge vão e voltam de Londres em uma carruagem puxada por quatro cavalos”. (fala da Sra. Elton ao comparar a distância de Maple Grove até Londres em um jantar em Hartfield)

A história é repleta de pequenos suspenses, momentos engraçados, divertidos e até mesmo dramáticos. Vemos Emma amadurecer e se transformar em uma grande mulher. Ela passa a aceitar dentro de si os conselhos da única pessoa que a vê como ela é e tem coragem de dizer-lhe tudo o que pensa.

Neste momento ocorrem algumas tragédias, e todos descobrem que há segredos importantes entre eles que podem mudar tudo e o quanto pode ser difícil superar a confiança. E realmente as coisas mudam. Um acontecimento desencadeia uma série de situações que muda a vida de todos os personagens, mas gloriosamente Jane Austen não deixa nada sem resposta e todos os acontecimentos durante a história são explicados e compreendidos através das conversas e cartas.

Jane Austen te segura do começo ao fim neste romance tão divertido e envolvente. Ela cria sua personagem imatura e a faz viver, sofrer e aprender com os erros e a transforma numa mulher forte, amável, sensível, de bom caráter e muito mais.

Eu adoro muito Persuasão, assim como gostei bastante de Orgulho e Preconceito. Mas, Emma mexeu com todos os meus sentidos e talvez eu tenha amadurecido o meu conhecimento de Jane Austen e pude viver melhor essa leitura como em nenhuma outra. Foi extremamente especial e marcante cada capítulo. Pude ler as 597 páginas em cinco dias tentando economizar para não acabar logo.

Estou enamorada por está grande obra, Emma, e por toda a graciosidade e elegância da escrita de Jane Austen.

Em breve lerei Mansfield Park, o único que ainda não li. Vou reler Persuasão, Abadia de Northanger e Razão e Sensibilidade que faz tempo que os li.

Até breve e ótimas leituras!

Por Laynne Cris

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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9 respostas para Mais um clássico de Jane Austen – “EMMA”

  1. Eduardo Góis disse:

    Excelente resenha, parabéns!

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  2. Juliana Lima disse:

    Gostei muito da forma que escreve também, sua resenha é rica em informações e não apenas um mero resumo da obra. Você escreve textos próprios?
    Caso esteja interessada em uma parceria entre em contato: fabulonica@hotmail.com ou pela Fan Page do Facebook. Desculpa mandar por aqui é que não tenho outro contato seu. Obrigada pela atenção. ☺😊😀beijos

    Curtido por 1 pessoa

    • laynnecris disse:

      Oi, Ju… Todos os textos na sessão artigo são textos de minha autoria, embora todos sejam realizados enquanto estudava. Mas, se quer saber se escrevo sobre algum tema ou algo assim. As vezes eu escrevo, mas não são algo que creio que deva ainda ser publicado… rs rs

      Parceria?! Seria uma honra. Pelo que vi sua formação é letra, e eu sou apaixonada por literatura.

      Curtido por 1 pessoa

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