O desenvolvimento mental da criança segundo Piaget

Jean Piaget é referência entre os psicólogos e educadores de todo mundo, devido a sua pesquisa na área de construção do conhecimento. Grande parte de sua importância foi alcançada graças ao seu sólido estudo sobre “epistemologia genética”, que dá sustentação científica a teorias acerca do processo de como o homem constrói o conhecimento.

Segundo Murani (2010, p. 13), Piaget tem sua formação ancorada na pesquisa científica, acreditando que o método científico é o caminho mais racional para a construção do conhecimento.

Com base na importância dada à epistemologia genética no tocante a construção do conhecimento, o objetivo do texto é realizar uma análise textual do trecho do livro “Seis estudos de Psicologia”, de Jean Piaget, sugerido pelo curso de Extensão – Leitura, Análise e interpretação de textos acadêmicos. Sendo objeto para estudo a primeira parte do capítulo um: o desenvolvimento mental da criança, que visa aprimorar habilidades e competências técnicas e conceituais.

Num primeiro momento se faz necessário compreender que Epistemologia Genética é o estudo da gênese do conhecimento e não um estudo sobre genética. A intenção de Piaget foi construir um método que fosse capaz de fornecer dados para remontar a origem de como aprendemos.

O caráter próprio da Epistemologia Genética é, assim, procurar distinguir as raízes das diversas variedades de conhecimento a partir de suas formas elementares, e acompanhar seu desenvolvimento nos níveis ulteriores até, inclusive, o pensamento científico (PIAGET, 2007, p.2).

Piaget considera que o desenvolvimento psíquico inicia-se com o nascimento da criança e vai até ela atingir a fase adulta.  Comparável ao crescimento orgânico, a psiquê humana tem como finalidade atingir um equilíbrio, conhecido como equilibração progressista.

A equilibração progressista, segundo o autor, possui a característica de passar de um estado menor para um estado superior.  Sendo ela um processo que ocorre de forma contínua através da interação que o indivíduo realiza com o meio físico, suas descobertas e experiências (PIAGET, 1999, p.13).

Acrescenta que a equilibração é uma situação dinâmica, nunca estática, ocorrendo em movimentos contínuos na busca por equilíbrio.  Estes movimentos são nomeados de ação e são motivados por necessidades intrínsecas e exteriores ao indivíduo, podendo ser necessidades fisiológica, afetivas ou intelectuais (PIAGET, 1999, p.16).

A ação é sempre despertada por um interesse ou necessidade e a inteligência procura responder, compreender ou explicar. Piaget defende que existe uma ordem geral para o aparecimento dessas necessidades ou interesses que é comum á todas as idades:

1º tende a incorporar as coisas e pessoas à atividade própria do sujeito, isto é, “assinalar” o mundo exterior às estruturas já construídas, 2º reajustar estas últimas em função das transformações ocorridas, ou seja, “acomodá-las” aos objetos externos (PIAGET, 1999, p.17).

Portanto, a ocorrência desses movimentos organiza a atividade mental e são conhecidos também como estruturas variáveis. Os movimentos realizados em resposta aos interesses ou às necessidades do indivíduo fazem com que a mente realize adaptações de ordem motora, intelectual e afetiva, sendo a afetiva com suas dimensões individuais e sociais. Esses movimentos ou estruturas variáveis são comumente conhecidos como: assimilação, adaptação, acomodação e equilibração, e são considerados fundamentais no processo de construção do conhecimento.

Piaget (1999, p.14) afirma que é necessário compreender as estruturas variáveis, a fim de diferenciar a conduta de uma criança, a de um adolescente ou a de um adulto. Condutas essas que assumem formas diferentes de acordo com o grau de desenvolvimento. Sendo conduta a forma do comportamento representada na ação do sujeito; que, através do desenvolvimento natural do processo orgânico e físico do corpo, somado às experiências anteriores faz a mente evoluir. Essa evolução se apresenta numa construção de novas e diferentes soluções que a mente realiza para responder às necessidades e interesses quando o indivíduo se relaciona com o meio a cada etapa do desenvolvimento. Por exemplo: Uma criança aos dois anos de idade não vai assimilar um objeto do mesmo modo que uma criança de dez anos faria ao ter contato com esse mesmo objeto. Pois, a compreensão deste objeto dependerá do nível de conhecimento anterior que cada um construiu durante o seu processo de desenvolvimento.

São esses diferentes níveis de conhecimento, mencionado no exemplo acima, que um indivíduo constrói desde o seu nascimento e que todas as características que são aprendidas e acomodadas resultam nos estágios de desenvolvimento.  O autor sistematizou e organizou as estruturas que são originais de cada estágio da vida humana, a fim de obter um método investigativo que servisse como suporte para estudos de como o homem constrói seu conhecimento.   Distinguem-se, então, seis estágios ou períodos de desenvolvimento:

1º reflexos, mecanismos hereditários, tendências instintivas e as primeiras emoções; 2º primeiros hábitos motores, primeiras percepções organizadas, primeiros sentimentos diferenciados; 3º início da inteligência senso-motora ou prática (antes da linguagem), regulações das afeições elementares, fixações exteriores da afetividade; (período de lactância, antes da linguagem e do pensamento) 4º Inteligência intuitiva, sentimentos interindividuais espontâneos, relações sociais e submissão ao adulto; (de 02 a 07 anos) 5º Operações intelectuais concretas (início da lógica), sentimentos morais e sociais de cooperação; (07 a 11/12 anos); 6º Operações intelectuais abstratas, formação da personalidade e da inserção afetiva e intelectual na vida adulta (adolescência) (PIAGET, 1999, p.15).

Nota-se que em cada estágio de desenvolvimento há características de estruturas originais próprias e comuns a todos os seres humanos em desenvolvimento.  Características que coincidem com a maturação biológica do corpo e a progressão que a mente realiza conforme ocorre o processo de construção de conhecimento.

Piaget (1999, p.17) afirma que o desenvolvimento mental é composto de pequenas construções progressivas que buscam uma equilibração cada vez mais completa; ora assimilando objetos, a ação ou o pensamento, acomodando-se a cada variação exterior ou interior.  Identifica-se nesse processo de assimilação e acomodação de novos conhecimentos, a adaptação, um processo de reorganização mental, movimento que leva a um estado de equilíbrio momentâneo.

A teoria piagetiana é complexa por envolver várias áreas de conhecimento, tais como, o conhecimento lógico-matemático, biologia, física, etc.  Na leitura de um texto de Piaget é possível observar a movimentação do seu raciocínio e reflexão acerca da observação do seu objeto de pesquisa e isso requer várias leituras e uma rica pesquisa dos conceitos e termos empregados a fim de uma acomodação precisa deste conhecimento.  A Epistemologia Genética é pouco compreendida por estes aspectos apesar de ser muito divulgada nos meios acadêmicos.

Referências Bibliográficas

MURANI, Alberto. Jean Piaget. Tradução e organização: Daniele Saheb. Recife: Fundação Joaquim Nabuco: Editora Massangana, 2010 (Coleção Educadores).

PIAGET, Jean. Seis estudos de Psicologia. Tradução: Maria Alice Magalhães D’Amorim e Paulo Sérgio Lima Silva. 24ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999.

PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. Tradução: Álvares Cabral. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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