Leitura Compartilhada – O amante de Lady Chatterley

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LAWRENCE, L.H. O amante de Lady Chatterley. Tradução de Sergio Flaksman; introdução Doris Lessing. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

 

É pra fechar o ano com chave de ouro, eu e a minha querida amiga Silvia Souza do blog Reflexões e Angústias guardamos essa resenha para postar hoje, o último dia do ano! 

Então, chega pertinho! Leia e sinta conosco essa magia que é o compartilhar ideias, emoções, sentimentos, pensamentos, impressões, etc.

 

 

Introdução

 

Em 27 de outubro de 2015, eu e a minha querida amiga Silvia iniciamos uma aventura maravilhosa. Decidimos compartilhar a leitura do livro “O amante de lady Chatterley” e para que pudéssemos ter um aproveitamento maior dessa leitura líamos um capítulo por dia e trocávamos e-mail a cada capítulo lido.

A cada e-mail trocado, descobríamos novas perspectivas e novos olhares através da percepção uma da outra, assim como também descobríamos o quanto em comum compartilhávamos. Essa troca enriqueceu a leitura e a apreensão do tema, assim como agregou valores e um estreitamento da nossa amizade.

Recomendamos a leitura compartilhada, pois além de um exercício mental excelente, é também um ato de amor e companheirismo.

 

Sobre o livro

 

O amante de Lady Chatterley é o último romance do escritor inglês David Herbert Lawrence, comumente conhecido por D.H. Lawrence. Este livro foi muito criticado e alvo de inúmeras polêmicas, inclusive proibido na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Publicado pelo autor somente em 1929, devido às recusas e a pirataria que sua obra sofreu por várias vezes. Lawrence reescreveu esse livro três vezes, a versão da edição que lemos é a última revisão realizada pelo autor, quatro anos antes de seu falecimento, com o acréscimo do artigo “A propósito de Lady Chatterley”, que Lawrence escreve para comunicar aos seus leitores os motivos que o levaram a compor essa obra.

A leitura deste livro requer que o leitor, no mínimo se aproprie do contexto em que o autor escrevia; uma sociedade hipócrita, puritana, reprimida e dissimulada. A temática abordada por Lawrence é uma pregação acalorada contra a sociedade de sua época e sobre a ignorância sexual.

É interessante para o leitor tomar conhecimento de que quando Lawrence escrevia ou reescrevia esta versão de “O amante de Lady Chatterley”, sabia que morreria. Lutava há anos contra a tuberculose e segundo Doris Lessing, escritora que faz a introdução desta edição, as pessoas acometidas pela tuberculose tendem a ter um temperamento hipersensível, irritável, desesperançado. Estar acometido por esta doença era ter certeza da brevidade da vida, ou seja, sabia que seriam poucos os anos que lhe restavam.

E de fato, Lawrence faleceu em Vence, no sul da França, em 1930, aos 44 anos de idade, apenas um ano depois de ter publicado o livro, que pra ele foi considerado como um testamento.

Realmente o livro tem uma carga de tristeza, desesperança, de finitude, rancor, desprezo pela sociedade, etc. Lawrence reflete através de cada personagem toda a sua indignação e sofrimento que uma época tão sombria impôs à vida dos cidadãos sobreviventes do pós-guerra.

 

Sinopse do “O amante de Lady Chatterley”

 

 IMG-20151110-WA0000Poucos meses depois de seu casamento, Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, vê seu marido partir rumo à guerra. O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley. Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher. Isolada, Constance encontra companhia no guarda-caça Oliver Mellors, um ex-soldado que resolveu viver no isolamento após sucessivos fracassos amorosos. 

Último romance do autor, O amante de lady Chatterley foi banido em seu lançamento, em 1928, e só ganhou sua primeira edição oficial na Inglaterra em 1960, quando a editora Penguin enfrentou um processo de obscenidade para defender o livro. Àquela altura, já não espantava mais os leitores o uso de “palavras inapropriadas” e as descrições vivas e detalhadas dos encontros sexuais de Constance Chatterley e Oliver Mellors. O que sobressaía era a força literária de Lawrence e a capacidade de capturar uma sociedade em transição. 
Esta edição inclui o texto “A propósito de O amante de lady Chatterley“, em que Lawrence comenta a controvérsia em torno do livro e justifica as suas intenções literárias, e ainda uma introdução de Doris Lessing, vencedora do prêmio Nobel de literatura em 2007. Um apêndice e notas explicativas situam o leitor na geografia das Midlands e no vasto contexto social e político no qual a trama está inserida.

 

Disponível em: <http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85008&gt;.Acessado em: 11 de dezembro de 2015.

 

Considerações da Leitura

 

A primeira declaração que gostaria de fazer ao iniciar este texto para expressar minhas percepções acerca dessa leitura é que: para mim este livro é surpreendente, provocador, induz à reflexão, extremamente sensível, etc. Enfim, são inúmeras as qualidades que poderia mencionar acerca dos sentimentos que esta leitura me causou.

Logo no início do livro nos deparamos com um parágrafo, que pra mim foi um prenúncio de tudo o que o autor imprimiria em cada um de seus personagens neste romance.

E cá está o fragmento:

“Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabam.” (página 45).

Já com este início constatamos que o livro não se trataria apenas de uma história de amor proibido/difícil entre um homem e uma mulher. E veja a primeira impressão que troquei com a Silvia:

 

Trecho do e-mail do dia 27 de outubro de 2015 enviado para a Silvia.

 

[…] Quanto ao livro do Lawrence, posso dizer com segurança que sabia que gostaria dessa leitura. Sexto sentido? Talvez. Mas, senti assim que o descobri, que este livro faria parte do meu rol de favoritos. E, ontem de madrugada quando li o primeiro parágrafo tive a confirmação que meu “instinto leitor” estava certo. Adorei o que senti e o que li.

O livro não trás apenas uma boa história, ela foi cuidadosamente construída e cria uma linha tênue de conexão com a alma do leitor. Não sei se é possível escapar! Sentiu isso?

A narrativa é gostosa e parece que tem alguém me contando uma história ao pé do ouvido. Do capítulo um fiz uma leitura em voz alta da primeira vez, e depois fiz uma leitura silenciosa absorvendo todas as informações que julgo necessário para o meu conhecimento e compreensão do todo.

 

Como podem notar pela minha animação no e-mail, o enredo e o ritmo narrativo é um ponto cativante para a leitura deste livro. O livro tem seu cerne, com certeza, mas as impressões que nos deixam são variadas e dependem de como cada leitor se atenta a esses detalhes, muitas vezes intricados num maremoto de emoções de seu autor.

Aprofundamos (nas impressões que trocamos) em muitas questões que são sutilmente abordadas através da ação entre os personagens, como: preconceito, divisões de classes, a guerra dos sexos, divórcio, relacionamentos, solidão, sexo, prazer, tabus, amor, etc.

Não tem como ler um livro desse e continuar a pensar da mesma forma. Lawrence é um escritor muito pragmático, persuasivo, provocante. Entretanto é possível sentir seu lamento a cada capítulo narrado, sentimos sua dor, sua falta de esperança. E apesar de nem sempre concordarmos com ele, temos empatia por suas colocações e as consideramos devido à influência de seu contexto social, econômico e até mesmo sua saúde. É sem sombra de dúvidas, um escritor que merece respeito e ser lido por nossa geração. Acredito que Lawrence ficaria decepcionado com o que se tornou o sexo para nossa era.

Todo o romance é permeado pela Primeira Guerra Mundial, todo o horror causado e a grande desolação que deixou com o fim da guerra. Lawrence imprime nesta obra o sentimento de que os homens precisavam encontrar consolo e prazer em alguma coisa para conseguir sobreviver em meio ao caos, e para Lawrence essa fuga/consolo seria o sexo feito com amor e não o sexo falso e mecânico promovido pela moral e pela sociedade puritana de sua época.

Leio este romance já chegando ao final de 2015, quase um século depois de escrito, chega ser assustador o quanto as mensagens contidas nele me parecem apocalíptica.

Mellors é um dos personagens principais e sofre de indignação com os avanços das indústrias e como isso tem mecanizado o homem, e a busca enlouquecida por dinheiro que causa a alienação das pessoas e a desvalorização das coisas simples, como a natureza, a vida em família, o campo, o sol, etc. Num trecho em que escreve uma carta para Connie, ele diz:

“Na verdade estou com medo. Estou sentindo o demônio no ar, e ele vai tentar acabar conosco. Ou não o demônio – mas Mammon: que, no fim das contas, acho eu, não é mais que a vontade coletiva das pessoas, gastando dinheiro e detestando a vida […]. Tempos difíceis se aproximam. Temos difíceis se aproximam, rapazes, tempos difíceis se aproximam! Se as coisas continuarem do jeito que estão, o futuro só reserva morte e destruição para essas massas industriais. Às vezes sinto que minhas entranhas se desfazem.” (página 467)

 

Para não estender mais a resenha, pois o livro renderia muitas e muitas páginas se analisados cada fato, que eu e a Sílvia conversamos através dos mais de 20 e-mails trocados. Quero deixar alguns pequenos fragmentos de nossas últimas considerações trocadas sobre o final desta leitura.

 

“Esse livro é uma crítica muito grande à industrialização, à hipocrisia da sociedade, ao fato de tratar o sexo como uma anomalia (sendo que ele faz parte da vida humana desde sempre…). Essa crítica é muito nítida, não é?

Eu achei essa carta do Mellors um pouco melancólica. Sinto nela um amor real, um amor maduro. Enquanto é difícil imaginar que o sentimento da Connie tenha a mesma maturidade.

Às vezes, tenho a impressão que o amor que encontramos mais velho um pouco, não aos 18 ou 20 anos, mas aos 30 ou 40, é um amor mais profundo. A impressão que dá é que já temos um conhecimento maior de quem somos, do que gostamos e do que buscamos.

A impressão final é que ele realmente tentou retratar a vida real, como vivemos, e não quis construir uma história com final feliz. O comportamento infantil do Clifford retrata isso, porque é assim que somos não é? Quando algo fica contra a nossa vontade, tendemos a fazer uma birra irracional, inexplicável, apenas pelo desejo de contrariar.

Esse é realmente um livro muito querido pra mim…”

Silvia Souza (fragmento do e-mail do dia 27 de novembro de 2015)

 

“Às vezes, penso que quando perdemos a esperança no amor, encontramos um jeito de sobreviver remoendo outros sentimentos, e no caso dela (Sra. Bolton) parece ser uma mistura de ódio e vingança.

Mas, ignorando a personalidade e o papel das personagens de Lawrence, podemos compreender que o que Lawrence quer mostrar, é que o ser humano precisa ter além de uma vida comum, ter a vida sexual. Veja como as pessoas se alteram vivendo ou não a sua sexualidade. Devemos acreditar que precisamos encontrar meios de obter prazer, para que possamos ter boa resistência às amarguras da vida? 

E, por fim, para não se alongar demais, acho que terminar o livro com aquela carta de Mellors foi tão criativo quanto foi envolvente. Ah, se fosse pra mim! Iria á pé até onde ele estivesse e daria uma “banana” para qualquer convenção idiota da sociedade.

Querida amiga! Essa foi uma jornada excelente. Aprendi muito com essa leitura, além de ter sido um momento em que pudemos compartilhar coisas nossas e aprender um pouco mais sobre o que somos e o que fomos.

 

Muito obrigada mesmo de coração por esse momento e vamos seguir.”

 

Laynne Cris Andrade (fragmento do e-mail do dia 24 de novembro de 2015)

 

Espero que gostem da resenha e nos acompanhe na próxima leitura. Em breve iniciaremos a leitura de “O Som e a Fúria” de um grande escritor – William Faulkner.

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Abraços

E FELIZ ANO NOVO PARA TODOS OS AMIGOS

Carinhosamente

Laynne Cris

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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19 respostas para Leitura Compartilhada – O amante de Lady Chatterley

  1. elaine reis disse:

    Excelente, Laynne!! Parabéns pela dupla e pelo texto!! Beijoca

    Curtido por 1 pessoa

  2. Silvia Souza disse:

    Foi uma experiência maravilhosa!!!
    😘😘😘

    Curtido por 1 pessoa

  3. Adorei a ideia da leitura compartilhada Lay :)) E esse livro parece ser bem interessante!!
    Um feliz ano novo pra ti e que seu 2016 seja um ano maravilhoso, repleto de momentos bons, muita felicidade, sucesso e conquistas pra ti e que você também realize muitas leituras e possa compartilha-las sempre aqui no blog ❤
    Grande beijo ❤

    Curtido por 1 pessoa

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  6. Juliana Lima disse:

    Meninas Parabéns!
    Como vcs são elegantes kkkkk…. quero ser igual quanto eu crescer. Duas Ladies💜
    Mais um livro para a minha lista de 2016😢😢😂😄
    Tá difícil viver….
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  7. Indiquei você para o Prêmio Dardos (https://eduardanaidel.wordpress.com/2016/01/06/premio-dardos/)! Parabéns pelo blog, amo entrar aqui e conhecer e aprender um pouquinho. Abç.

    Curtido por 1 pessoa

  8. Pingback: O Som e a Fúria – Willian Faulkner | Meu Espaço Literário

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