A Redoma de Vidro – The bell Jar

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PLATH, Sylvia. A Redoma de Vidro. Editora Harper Perennial

 

Em 2010 tive conhecimento sobre esse livro devido ao curso que realizava. Durante um ano e meio o cursei Psicologia e algumas indicações de leitura e de filmes foram indicadas para os iniciantes e também buscávamos de forma autônoma também por materiais que nos pudessem auxiliar na compreensão de alguns sofrimentos psíquicos.

Apesar do interesse nessa leitura, evitei a leitura desse livro por causa de sua temática forte por acreditar que não era um momento ideal para mim. É um tema difícil de lidar porque é um tema muito humano, muito real até hoje – a depressão, a neurose.

Por fim, nesses dias, decidi então lê-lo. E vamos ao livro.

 

Prepare seu coração e sua mente!

SINOPSE

belljar

Dos subúrbios de Boston para uma prestigiosa universidade para moças. Do campus para um estágio em Nova York. O mundo parecia estar se abrindo para Esther Greenwood, entre o trabalho na redação de uma revista feminina e uma intensa vida social. No entanto, um verão aparentemente promissor é o gatilho da crise que levaria a jovem do glamour da Madison Avenue a uma clinica psiquiátrica. Lançado semanas antes da morte da poeta, o livro é repleto de referências autobiográficas. A narrativa é inspirada nos acontecimentos do verão de 1952, quando Silvia Plath tentou o suicídio e foi internada em uma clínica psiquiátrica. A obra foi publicada na Inglaterra sob o pseudônimo Victoria Lucas, para preservar as pessoas que inspiraram seus personagens. Assim como a protagonista, a autora foi uma estudante com um histórico exemplar que sofreu uma grave depressão. Muitas questões de Esther retratam as preocupações de uma geração pré-revolução sexual, em que as mulheres ainda precisavam escolher se priorizavam a profissão ou a família, mas A redoma de vidro segue atual. Além da elegância da prosa de Plath, o livro extrai sua força da forma corajosa como trata a doença mental. Sutilmente, a autora apresenta ao leitor o ponto de vista de quem vivencia o colapso. Esther tem uma visão muito crítica, às vezes ácida, da sociedade e de si mesma, mas aos poucos a indiferença se instaura, distanciando a moça do mundo à sua volta. ‘Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia’. Ao lidar com sua depressão, Esther também realiza a transição de menina para uma jovem mulher. Mais que um relato sobre problemas mentais, A redoma de vidro é uma narrativa singular acerca das dores do amadurecimento.

Disponível: http://www.livrariacultura.com.br/p/a-redoma-de-vidro-42744934

A LEITURA

sylvia_plath_by_magnoliamountain.jpgQuem lê a biografia da autora sabe que Sylvia Plath viveu uma vida intensa e curta. A Redoma de vidro é o seu único romance, lançado em 1963. A autora escrevia poemas e sonhava com a fama, a só alcançou com a sua morte no mesmo ano de lançamento do livro. Só por esses aspectos a expectativa antes de iniciar a leitura já é tensa, tipo pensasse “o que aguardar nas páginas desse livro?”.  

Nota sobre a autora

Sylvia Plath foi uma poetisa, romancista e contista norte-americana.

É reconhecida principalmente por sua obra poética, considerada dentro do estilo da poesia confessional. Seu único romance semi-autobiográfico é permeado de fatos históricos vivenciado pelos americanos no período da depressão e do pós-guerra. Ela narra e sua personagem discute o caso Rosembergs que ocorreu em junho de 1953. Foi publicado primeiramente por um pseudônimo Victoria Lucas e publicado em nome da autora em 1963, ano que coincidiu com o seu falecimento. 

linha divisória

Garanto que não é nem um show de horror.

Mas é tenso, estranho, chega a causar espanto pela forma como vamos vivenciando junto com a personagem o seu adoecimento de uma forma sutil e quase imperceptível.

Esther Greenwood é uma jovem do interior, inteligente, de boa família e que ganha através de seus esforços uma bolsa de estudo de uma universidade conceituada para fazer o curso de Letras. Juntamente com a bolsa também ganha um prêmio para estagiar em uma revista bastante famosa por um mês, vivendo todo o glamour e prestígio que a jovem jamais havia tomado conhecimento. Podia participar de encontro com autores, jantares, belas roupas, conhecer pessoas importantes, etc.

Apesar de toda a tentação oferecida, no começo ela fica reclusa em seu quarto e apenas se dedica aos estudos, para garantir as boas notas e manter sua bolsa. É uma mulher muito sarcástica, tem um ar frio ao analisar as situações e vê com desprezo o deslumbre das jovens de sua idade para com as festas e com os rapazes.

A narrativa é feita em primeira pessoa, então tudo o que sabemos parte da percepção que Esther tem acerca de tudo o que sente e do que a cerca. E vamos percebendo que ela não está satisfeita com nada, não tem amigos, não se mistura com outras pessoas, ela vê o pior das pessoas e isso parece incomodá-la a ponto de irritá-la, justamente por se sentir obrigada a ter que agir de uma forma cortes e agradável mesmo sendo em total desagrado de sua parte fazê-lo. 

De uma forma sutil e rápida vemos uma mulher adoecer. Uma moça que sai da sua cidade em busca de um sonho, volta pra casa e não sabe mais o que é ou o que será.

Acompanhamos tudo o que ela vivencia na volta para a cidade, a atração pelo sucesso, sua frustração com a rejeição de um curso de escrita nas férias, a sua revolta com a ideia pré-concebida do papel que sua sociedade impunha para uma mulher, a forma como os homens a tratavam e olhavam para ela, etc.

Esther sente uma cobrança do mundo, quer oferecer o seu melhor, quer ser alguém, quer ter sucesso e alcançar a fama como uma escritora de sucesso. Ela esta de volta em casa, tem as férias inteira pela frente, faz muitos planos, mas tudo começa a desabar. Tudo o que ela planeja fazer não dá certo, ela passa a se enxergar de uma maneira negativa, revolta-se contra as pessoas ao redor, irrita-se com a vida num todo, sente uma incapacidade para qualquer tarefa imaginada.etc. Esther começa a definhar.

Esther vai se esvaindo, até que chega um dia e percebemos que ela não dorme bem (segunda ela tem semana inteira que não consegue dormir), não se alimenta direito, não toma banho, está entregue a um falta de vontade enorme de existir. Ela acha que está apenas ansiosa. Toma remédios e mais remédios para dormir. Seu humor é alterado. Ela está insensível. Revoltada.

“Eu engatinhei de volta para a cama e puxei o lençol sobre minha cabeça. Mas mesmo isso não bloqueou a luz, então eu enterrei minha cabeça sob a escuridão do travesseiro e fingi que era noite. Eu não via o porque de me levantar. Eu não tinha nenhuma expectativa”.

A situação vai se agravando, e é estranho porque a personagem num momento parece lúcida, bem, é inteligente, cheia de sonhos e num piscar de olho começa cair como num abismo. Ela não está bem. Mas, ninguém nota. Nem a própria mãe compreende o seu adoecimento.

Apesar do clima sombrio, a escrita é leve, poética e tem um ritmo que facilita o avanço da leitura sem problemas. Tem até um humor leve porque a personagem tem umas respostas afiadas, ela pensa de forma sincera demais. Como se seu adoecimento fosse como tirar o véu que cobre o mundo e de repente o visse como ele realmente é.

Além do problema psíquico de uma personagem que busca na morte encontrar o alívio para o seu sofrimento. A calma como ela planeja tudo, a frieza como ela avalia os fatos torna a narrativa real e até mesmo assustadora.

Ela compreende e reconhece que existe um problema dentro de si. Não enxerga mais a beleza na vida, não sente amor, não tem afeição pelas pessoas próximas a ela. Está vazia ou bloqueada de tal forma que se sente sufocada como se estivesse sob uma redoma de vidro e não pudesse respirar.

Muitos críticos e biógrafos dizem que muito deste romance é autobiográfico, por várias vezes a autora viveu uma crise emocional e tentou o suicídio por três vezes. Tendo sucesso na última tentativa.

A época vivenciada na trama é um momento em que a sociedade vivia uma grande ruptura no âmbito dos direitos das mulheres. A mulher busca o seu reconhecimento, busca a aceitação de sua sexualidade, o direito de não ter que se casar assim que completar vinte e um anos, a mulher ousa sonhar em ser mais que uma esposa dedicada, ousa descobrir o prazer através da busca no outro, etc.

Esther sofre e vivencia alguns dos muitos preconceitos e obstáculos dessa mulher moderna em ascensão. Tem um pensamento muito liberal e com um diferencial para uma mulher de sua sociedade é sofre por isso. Sente-se infeliz e não se sente pertencer ao grupo. Há um trecho em que ela recusa um casamento com um homem, que para todos era o melhor partido que ela poderia encontrar e ele lhe dizia (como a mãe dele):

“O que um homem quer é uma companheira e o que uma mulher quer é segurança infinita,” e, “O que um homem é se não uma flecha em direção ao futuro e o que é uma mulher se não o lugar onde a flecha pousa,”…

E o que Esther pensava a respeito:

“Essa é uma das razões porque eu nunca quis me casar. A última coisa que queria era segurança infinita e estar no lugar de onde uma flecha é atirada. Eu queria mudança e emoção e ser atirada em todas as direções, como flechas coloridas de um rojão de Quatro de Julho.”

Esther passa suas férias inteira arquitetando nas melhores maneiras para resolver seu problema, o qual pra ela, a solução seria colocar um fim em sua vida. Ela por fim organiza de forma bem metódica o suicídio.

Dá errado e por fim ela é encontrada e começa todo um dilema em prol de sua recuperação em um manicômio. O que para ela é mais um agravante para sua autoestima. Mas, ela se vê sem saída vivendo em um lugar em que nada que pudesse se transformar em algum instrumento perigoso era deixado por perto.

Apesar da situação em que Esther se encontrava, ela não aparentava ser uma pessoa fraca, é sempre sincera e tem um tom frio e sarcástico para falar. Notamos apenas que ela vê o mundo contra ela, pra ela todas as pessoas querem o seu mal, ou estão a falar algo ruim dela pelas costas. Ela sofre com um constante ataque de seus próprios pensamentos, não consegue enxergar nada além da “verdade” que sua mente cria para si mesma.

Dentro da clinica ela vivencia muitas situações que são às vezes engraçadas, dramáticas, estranhas, exóticas e aos poucos a vemos voltando de dentro do escuro de sua mente.

É emocionante. Bonito e triste. O estilo da escrita da Sylvia Plath é poética e a personagem foi construída de tal forma que denota claramente que a narrativa vem de uma mente doente e em conflitos constantes.

Só tenho uma ressalva a dizer sobre este livro: Ele precisa ser lido com uma total racionalidade e com uma certeza de que a natureza humana é passível a todas estas artimanhas da mente e estar psicologicamente estável.

Apesar de ser duro encarar algumas realidades, ignorá-las não é o melhor caminho, precisamos compreender que diante de algumas circunstâncias em que as coisa pra nós parece ser insuportável é preciso buscar ajuda, mesmo que outras pessoas considerem que seja uma fraqueza de nossa parte. Nunca uma pessoa tem uma reação igual a outra. Somos únicos em nossos sentimentos e toda e qualquer experiência torna-se única para aquela pessoa e nunca dá pra saber como é que o outro sente.

Não é nenhum livro fofo. Mas, é uma excelente obra. Bem escrito. Bem construído. Bem cuidado e de uma estranha e leve sutileza.

A Redoma de Vidro apresenta uma das faces da vida como ela é.

avaliação

Larry Peerce / “The Bell Jar” based on Sylvia Plath’s novel / 1979/ Full Movie

Um grande abraço carinhoso

E boas Leituras

Laynne Cris

 

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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7 respostas para A Redoma de Vidro – The bell Jar

  1. Lay, já tinha visto este livro e até fiquei curiosa para ler. Gosto de leituras que mostram a realidade da vida e que também nos fazem refletir de certa forma, mas por este se tratar de uma temática um pouco mais forte, eu acabei deixando de lado, mas creio que lerei algum dia sim… Adorei demais sua resenha *-*
    Um beijão ❤

    Curtido por 1 pessoa

    • laynnecris disse:

      É um tema sim bem forte e confesso que tive alguns receios pra ler. Mas, acho que é uma leitura válida e a escrita da Plath é muito bonita e a personagem é cativante – você tem raiva dela, mas por outro lado você passa a ter uma empatia e compreender que certas coisas simplesmente acontecem. Ah, e o contexto de época também é bem interessante. Você vai gostar… deixa quando você estiver mais velha.

      Curtido por 1 pessoa

  2. isahebling disse:

    Uma resenha e tanto! Esse é um dos meus livros favoritos. Teve um impacto enorme pra mim e me ajudou a entender muita coisa! Que bom que você gostou dele! (Não sei se enchi sua caixa de comentários, mas o WordPress tá cheio de crashs hehehe)

    Curtido por 1 pessoa

  3. Eu li esse livro no ano passado, e foi uma experiencia ímpar!

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