Primeira obra de Tolstói

Felicidade Conjugal

TOLSTÓI, Leon. A felicidade conjugal seguido de O diabo. Tradução e prefácio de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012.

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Janeiro de 2016 foi um mês em que a leitura não ganhou grande espaço no meu dia a dia; devido à maratona de estudos e ao trabalho, fiquei com pouco tempo para ler. Mas, mesmo assim consegui ler quatro livros entre idas e vindas do trabalho, nas filas, nos intervalos. E em qualquer oportunidade de ócio, lá estavam eles ao alcance das minhas mãos.

E a primeira leitura concluída foi o livro do escritor Leon Tolstói. Autor que tenho vontade de ler já faz algum tempo. Quero ler Anna Karenina e Guerra e Paz, mas antes quero ter algum conhecimento do estilo de escrita do autor.

A felicidade Conjugal seguido de O Diabo é a primeira novela do autor, desenvolvida em sua fase da juventude. Segundo o prefácio elaborado pela editora L&PM por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, Tolstói não considerou feliz a publicação desta obra, em 1859, achou-a muito fraca, falsa e ruim mesmo. Ficou arrependido de tê-la dado ao editor.

Que bom para nós leitores que ele só teve essa percepção depois da publicação!

Tolstói é considerado um exímio criador de narrativas que visam buscar a beleza de tudo e um excelente criador de personagens marcantes, e de mesclar a ficção com uma análise profunda do comportamento e dos pensamentos humanos, e acima de tudo é um grande crítico de si mesmo.

Bom, quem já leu alguma obra do escritor deve saber se isso é verdade. Eu, estou apenas iniciando minha trajetória tolstoiana, e seguramente posso lhes dizer que fiquei apaixonada com a forma como a narrativa me permitiu recriar todas as imagens do cenário e sentir todas as emoções vividas por seus personagens.

Mas, vamos ao livro.

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Sinopse

 

Duas pérolas de um mestre da literatura universal

“Tolstói é o maior de todos os narradores”


Virginia Woolf

 

Poucos escritores penetraram tão fundo na alma dos seus personagens quanto Leon Tolstói (1828-1910), dono de uma técnica narrativa certeira e cristalina. É o que pode ser visto neste livro, que reúne duas primorosas amostras da sua vasta obra. Publicada em 1859, A felicidade conjugal é a primeira obra do futuro autor de Guerra e paz. Já o conto O diabo foi escrito em 1898 e publicado postumamente, em 1916. De origem autobiográfica, ambos os textos tratam das mesmas questões, caras a Tolstói: o papel do casamento, do sexo e das relações amorosas, bem como a responsabilidade moral dos indivíduos.

Em A felicidade conjugal, o autor demonstra sua habilidade de narrar a partir do ponto de vista de um personagem feminino – habilidade que seria levada às últimas conseqüências em Anna Karênina – para retratar a meninice despreocupada da princesinha Macha, sua aproximação e o posterior relacionamento com Serguêi Mikháilovitch. Em O diabo, Evguêni, um bacharel em Direito, se envolve com uma bela camponesa da região, num caso que teria tudo para ser esquecido e relegado às loucuras de juventude. Mas Evguêni é jovem, e não percebe que está criando armadilhas para si mesmo.

 

Fonte:http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=816351&ID=534416

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apaixonada

A novela – A felicidade Conjugal

“A felicidade Conjugal” é uma novela em que o autor narra com minuciosas descrições das estações, e é na primavera que a onda do despertar da paixão envolve a personagem principal, Macha.

“[…] a primavera chegou. Minha tristeza anterior havia passado e fora substituída por uma inquietude primaveril e sonhadora, de esperanças e desejos incompreensíveis. Eu já não passava o tempo como no início do inverno, pois o preenchia cuidando de Sônia, ou com a música ou a leitura.”

É impressionante ver uma visão feminina tão bem construída por um homem – que talento! Narrativa em primeira pessoa, a Macha, e é a partir da visão dos sentimentos e a perspectiva dela e da personificação da paixão e do amor que vamos adentrando em um mundo todo fantasioso de uma jovem tornando-se mulher.

 A paixão é tão bem delineada que se torna quase palpável e é a característica mais marcante dentro da novela, porque nos incita a uma reflexão acerca desta fase da vida, pontuando o quanto de nossa personalidade pode ser formado a partir de como internalizamos essas vivências.

 A jovem Macha fica órfã e descobre que um amigo antigo da família, que a conhece desde menina, passa a ser o tutor dela e da irmã menor, Sônia.

“Serguêi era nosso vizinho e fora amigo de meu finado pai, embora fosse bem mais moço do que ele. Além do fato de que sua chegada iria modificar nossos planos e abriria a possibilidade de irmos embora do campo, desde pequena eu me acostumara a gostar dele e respeitá-lo, e Kátia, ao mandar animar-me, adivinhava que, de todos os conhecidos, Serguêi Mikháilitch era a pessoa diante da qual eu menos gostaria de me mostrar com uma aparência desfavorável”.

As duas garotas, após o falecimento dos pais, viviam sozinhas no casarão da família, apenas com a companhia de sua babá, Kátia, e dos outros serviçais da casa. Macha está entre os 16 e 17 anos e ao receber a primeira visita de Serguêi Mikaháilich percebe a diferença no olhar dele para com ela. E por sua vez também o percebe de outra maneira.

Macha sempre teve Serguêi em bom conceito, pois quando menina sua mãe dizia que se tinha um homem que ela adoraria que a filha se casasse, esse homem era Serguêi Mikháilitch.

Mas, nesta nova fase de sua vida tudo era novo para ela. A partir de seus pensamentos, conhecemos suas indagações acerca de todas as mudanças que sentia ao notar que a presença desse homem mais velho começa a provocar-lhe algumas novas sensações até então desconhecidas por ela.

E toda a história é construída de uma maneira inocente, cativante, apaixonante; desfilando por todos os arroubos da paixão. Tolstói descreve todos os passos dos sentimentos humanos de encontro ao outro. No primeiro momento a paixão, depois a satisfação desse desejo, depois a sensação de insatisfação. Em que parece que o amor e a paixão não provocam mais todos os gorjeios de antes e o indivíduo cai numa profunda desordem de si mesmo. Temos o conflito entre o que se viveu e o que se tinha e o que sobrou, ou o que pensamos ter. Vemos claramente a frustração e a insatisfação humana frente às situações vividas, e por fim o aprendizado da vida e o descobrimento do verdadeiro amor e da amizade, ou a busca por ele.

Tolstói reconstrói com encanto, lirismo e de maneira intensa os caminhos que o ser humano percorre até encontrar um pouco de equilíbrio de suas vontades e anseios. Mostra a partir da vida destes personagens personificados a mais de 150 anos atrás, que somos ainda movidos por nossa complexa insatisfação com a vida.

“A partir daquele dia, terminou meu romance com o meu marido. O antigo sentimento tornou-se uma recordação preciosa, mas impossível de renascer. Um novo sentimento, de amor aos meus filhos e ao pai deles, deu início a uma nova vida, uma vida feliz mas diferente, que ainda estou começando a viver”.

A vida é um longo percurso cheio de fases e precisamos aprender a tirar de cada uma dessas fases o melhor que pudermos. Para, a partir da experiência, alcançar enfim o que nossa alma tanto anseia – a felicidade.

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O conto – O diabo

 

Quando li o título desse conto tive a impressão que poderia tratar-se de algo religioso, porque Tolstói tem toda uma filosofia de vida pautada na religião e na construção de uma moral do comportamento.

Mas, que tola impressão errada foi a minha. Pois é um conto muito divertido. Na verdade tem um senso de humor negro e revela o triste papel da mulher na sociedade daquela época e não tão distante do que é hoje – que, cá entre nós, também não estamos numa situação de muito prestígio. Infelizmente ainda somos vista de maneira que não me agrada muito por muitos. Mas, isso é outra história; e tão complicada de conversar quanto religião e política.

No entanto, a ficção corrobora para tornar público diversos temas que são tabus. E em outras vezes servem para “abrir” nossos olhos e nos evidenciar certos impasses de nossa sociedade doente e carente de diversos valores. E convenhamos que exitem coisas que atravessam séculos e séculos e não se veem muita diferença, apenas mudanças de perspectivas ou foco.

Em “O Diabo” somos apresentados ao jovem Evguêni Ivânovitch Irtênev, um filho atencioso de uma família distinta, bom homem, honesto. Recebeu boa educação, tinha amizades importantes na alta sociedade, rico e de caráter digno de orgulho. Mas, como nem tudo são flores o pai do rapaz morre e deixa para ele um enorme problema. Além de alguns segredos que podiam colocar a reputação do pai na lama diante da “casta” sociedade, o pai o deixa com enormes dívidas e muitos problemas na administração de suas propriedades.

“Após a morte do pai e ao fazer a partilha dos bens, os irmãos verificaram que haviam tantas dívidas, que o encarregado do inventário até chegou a aconselhá-los a renunciar à propriedade e ficar apenas com a herdade da avó, que valia cem mil hublos.”

Mas, esse era apenas o pano de fundo para este conto. Assim como na novela (citada acima), a narrativa também é toda permeada por um estilo lírico e numa sequência cronológica que torna a leitura quase um filme a rodar em nossa imaginação. As características dos personagens, assim como as descrições dos cenários, são claras e não atrapalham o caminhar da história, muito pelo contrário, elas favorecem a compreensão dos acontecimentos.

Evguêni é um homem bonito e vivaz. Acostumado com a vivência luxuriosa e a facilidades da alta sociedade e da cidade, vê sua vida transformada quando precisa se mudar para umas das propriedades do interior, a qual precisa a todo custo reestabelecer a ordem para não perder todo o seu patrimônio.

“Havia muito trabalho a fazer, mas Evguêni tinha energia de sobra, tanto física como mental. Ele tinha 26 anos, altura mediana, compleição forte, musculosa devido à ginástica; era do tipo sanguíneo, corado, de dentes claros e cabelos finos, macios e ondulados. Seu único defeito físico era a miopia, que ele mesmo provocara usando óculos e agora não podia ficar sem seu pincenê, que já havia feito um sulco no alto do nariz. Assim era ele fisicamente.”

Sendo um rapaz de bom caráter, ele se depara com um grande problema. Como viver a vida boemia de antes numa aldeia em que só se tem mulheres casadas e moças de família.

“Não era depravado, mas também não era nenhum monge, como ele mesmo costumava dizer. Mantinha essa prática, segundo suas palavras, apenas para garantir sua saúde física e independência mental. Ele o fazia desde os dezesseis anos e até então tudo tinha corrido bem, ou seja, não se entregara à depravação, não se apaixonara nem pegara nenhuma doença.”

A partir dessa problemática, vivenciamos momentos inacreditáveis, situações até mesmo constrangedores que nos fazem refletir e deduzir – “O que uma pessoa é capaz de fazer para realizar seus desejos e anseios?”.

“A continência involuntária começava a ter nele reflexos negativos.”

E mais uma vez Tolstói constrói toda uma narrativa a partir dos sentimentos humanos mais intensos e muitas vezes não verbalizados por nós. Com ousadia o autor não omite e nem ameniza nenhuma das situações em que o jovem Evguêni enfrenta para resolver o seu “problema”.

E, então ao poucos o leitor vai descobrindo quem é o diabo. E como você faria para se livrar dele?

Nesse conto o autor nos brinda com um final extra. Então, temos duas possibilidades para o fim do jovem Evguêni. Mas, digo-vos que os dois finais me causaram espanto e certa indignação.

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Bônus de Leitura

 

A editora L&PM acertou em cheio com o perfeito prefácio, em que nos apresenta uma bela narrativa sobre a vida de Tolstói – sua carreira, sua vida, sua ideologia, seus pensamentos, etc. Inclusive dizem os críticos que esse conto é bastante autobiográfico e a partir dele Tolstói tenta mudar seu estilo de escrita, em que se refere ao uso de frases menos longas e com menor uso dos recursos descritivos e simbólicos tornando-o dono de uma das mais certeiras técnicas de narrativa.

 

Leia um trecho do livro

 

Disponível em: http://www.lpm.com.br/livros/Imagens/a_felicidade_conjugal.pdf

 

Saiba mais sobre a vida e obra do autor

 

Disponível em: http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=607090

avaliação

Afetuosamente

Boas Leituras

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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23 respostas para Primeira obra de Tolstói

  1. elaine reis disse:

    Laynne, estou com os dois aqui, Anna Kariênina e Guerra e Paz, mas o lance é tempo. Bem as aulas recomeçaram e eu já anseio pelas férias, rsrsrs…
    Parabéns pelas resenhas!
    Beijooo procê!!! E ó, isso é que é aproveitar bem o tempo, vc arrasou!

    Curtido por 1 pessoa

  2. annielightwood disse:

    Fiquei curiosa! Já tinha ouvido falar de Tolstói, obviamente, mas confesso que nunca me interessei realmente, mas agora fiquei com vontade de ler, especialmente A felicidade conjugal. Apenas duas coisas me preocupam: a linguagem (espero que não seja muito complicada) e o excesso de descrição (espero que ele não se demore muito ao descrever algo).
    Beijos:)

    Curtido por 1 pessoa

    • laynnecris disse:

      Annie, eu também tinha esse medo. Mas, note os trechos que destaquei na resenha, a descrição e o lirismo não são enfadonhos. Eu gostei muito da leitura desta novela e confesso que senti aquela sensação – porque não li isso antes.
      Pra quem ama a história, adora visualizar cenários de época, Tolstói é um prato cheio. E a personagem é tão real, que sentimos aquela sensação de reconhecimento em muitos pontos. E sem falar que esse livro é bem curtinho, por isso optei em começar por ele.

      Super recomendo e “Enjoy it”. Próximo dele será Anna Karenina… só vou assistir ao filme quando ler os livros.

      Um beijo grande e boas leituras.

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  3. Silvia Souza disse:

    Tolstói é mesmo incrível!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Que delícia ver seu post sobre Tolstói. Li A felicidade conjugal há alguns meses e tambem fiquei impressionada com o estilo da narrativa, com a sedução pelas palavras, li cada página com grude, com dificuldade de fechar o livro. Também os demais entraram na fila! Beijão.

    Curtido por 1 pessoa

    • laynnecris disse:

      Que delícia é ler seu comentário. Fico imensamente feliz em saber que teve as mesmas impressões que a minha. É muito doce, né? O amor que Serguêi tem pela Macha é um amor muito sublime e constante. E é uma lição de vida a forma como ele renuncia o próprio amor para que ela pudesse aprender e conhecer o mundo, né. Mas, notou a grande contradição entre Serguêi e o jovem Evguêni? Realmente Tolstói é demais!

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  5. roccalex1 disse:

    Tolstói, apesar de não ser um dos meus escritores russos prediletos (Dostoievski, Nikolai Gogól são os meus preferidos) mas eu admiro muito a sua obra. Anna Kareninna é uma história belíssima que tenho certeza que irá se apaixonar. Quanto à sua postagem eu adorei.
    Um grande beijo.
    Alex

    Curtido por 1 pessoa

  6. Amei a resenha!! Tenho muita vontade de ler algo deste autor, incluindo Anna Karênina hehe.
    Beijinhos 💕

    Curtido por 1 pessoa

  7. preciso ler esse trem.

    falta tempo!

    obrigada pela sinopse

    Curtido por 1 pessoa

  8. Pingback: Liebster Award 2016 | Meu Espaço Literário

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