O ser e o ter – Coluna 03

Afonso Pola coluna 03

 

O ser e o ter

 

Herdamos um mundo de muitas imperfeições. O século XX, em toda a sua duração foi palco de inúmeras atrocidades e de um endeusamento exagerado da tecnologia. Como dizia o velho Marx, a sociedade burguesa desenvolveu uma profunda inversão de valores, pois ela promoveu a humanização das coisas e a coisificação das pessoas. A partir de tal constatação, cabe a nós a seguinte indagação: que mundo nós deixaremos para nossos filhos e netos?

Antigamente, o Natal era um momento particularmente caracterizado pela religiosidade. Também se trocavam presentes, mas a motivação principal era a comemoração do aniversário de Cristo. Hoje, no entanto, a data se constituiu no ápice do consumismo, sobrando muito pouco espaço para reflexões de caráter existenciais. Os chamamentos para o consumo são muito mais frequentes nas decorações de Natal do que o simbolismo sugerido pela data.

Infelizmente, o homem tem se tornado mais ambicioso e mesquinho do a sua própria humanidade pode suportar. A produção e concentração de riqueza desenfreada praticada particularmente no século passado colocaram em risco a nossa existência. Adoecemos o planeta com a nossa ganância. Temos uma imensa dificuldade de reconhecer isso e, consequentemente, de corrigir o rumo.

A intensificação da globalização e de toda a engenhosidade tecnológica que alcançamos reduziu a distância física entre as pessoas, mas isso se deu de forma muito superficial. Hoje nós tomamos conhecimento do que acontece em qualquer parte do mundo em tempo real, mas somos menos capazes de nos sensibilizarmos com o que acontece com os outros.

O processo de globalização derreteu fronteiras geográficas e promoveu a livre circulação de mercadorias e dinheiro pelo mundo afora. Mas e as pessoas? Bem, as pessoas é uma outra história. Turistas abonados também podem circular livremente. Refugiados de guerras e da fome não. 

No século passado, ainda em sua primeira metade, o mundo conheceu suas duas grandes guerras, ambas testemunhadas pelos soldados que as combateram e pelo povo que vivia nos espaços geográficos onde esses combates ocorreram. Hoje estamos próximos dos conflitos, mesmo quando eles acontecem em lugares distantes. Os novos conflitos, desde a invasão do Iraque pelos Americanos, são televisionados e a violência presente neles nos envolve até que ela, a violência, não nos causa mais estranheza.

Mundo de estranhas contradições esse nosso. Jorge Paulo Lemann é o homem mais rico do Brasil e a 26ª maior fortuna do mundo. Ele tem R$ 83,70 bilhões, o que no câmbio atual representa aproximadamente U$ 21 bilhões. Pois bem, a Somália, país situado na Região Leste da África e com uma população superior a 9 milhões de habitantes possui um PIB (Produto Interno Bruto) inferior aos U$ 6 bilhões. É isso mesmo. O homem mais rico do Brasil possui uma riqueza 3,5 vezes maior que tudo que é produzido naquele país no período de um ano.                    

Por mais que tenhamos desenvolvidos um arsenal tecnológico fantástico, ainda estamos muito longe de conquistar coisas essenciais como a paz e o respeito às diferenças. Pertencemos a uma espécie que sobreviveu em função de sua capacidade cooperativa. No entanto, desenvolvemos o individualismo e a competitividade como característica marcante do nosso tempo. A solidão foi considerada o mal do século XX. E a solidão não apareceu nos povoados remotos, onde a distância entre vizinhos é grande. Ela surgiu nos grandes centros urbanos, justamente nas áreas mais densamente povoadas.

Corremos muito para produzir e possuir coisas e estamos apressadamente nos distanciando uns dos outros. Corroemos nossa essência e nos perdemos dentro do mundo tumultuado que criamos. É a criatura engolindo seu criador. É o ter subjugando o ser.

 

Afonso Pola    

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Sobre laynnecris

Sou Elaine C. Andrade. Hoje (2017) tenho 38 anos. Sou apaixonada pela leitura e por escrever. Sou formada em Pedagogia e pretendo me especializar em Inglês, alfabetização e gestão escolar. Tenho uma fascinação por músicas e Inglês. Atualmente tenho me dedicado muito na busca da fluência e sou professora alfabetizadora em Inglês. Minha meta é passar no exame da IELTS e talvez morar fora um tempinho. A leitura é para mim um meio muito prazeroso de poder atingir locais e lugares inimagináveis, além de ser uma terapia e uma fonte de conhecimento sem fim. E quando aprendemos nos proporcionar esses momentos para entretenimento, ler torna-se uma atividade necessária para o dia a dia. Também gosto de desenhar, colorir, ouvir músicas. No entanto, faço com menos frequência (só quando surge aquela vontade enorme ou sobra um tempinho). Agora ler nunca estou sem ler algo e onde vou tenho um livro comigo. Me sinto mal se não posso ler. É uma necessidade. Embora ultimamente tenho lido mais livros técnicos e materiais em Inglês. Nasci em Suzano e atualmente moro num bairro de Mogi das Cruzes e estou aprendendo a me adaptar por aqui. Também adoro participar de comunidades de leitura no facebook e canais literários do youtube. Conhecer pessoas, descobrir novos talentos e as vezes encontramos pessoas muito maravilhosas. Enfim, sou uma mulher e profissional comprometida e apaixonada pelo que faço, amo minha minha família e amigos mais que tudo neste mundo. "Que aonde eu passar eu faço amigos e possa agregar valores e aprender também". Laynne Cris
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16 respostas para O ser e o ter – Coluna 03

  1. roccalex1 disse:

    Ter significa poder, mas não tem qualquer relação com felicidade. As pessoas acham que comprar leva traz uma felicidade momentânea e depois se arrependem, pois compraram sem necessidade e por impulso, muitas vezes. Falo por mim também, pois quando estou em mania bipolar acabo comprando por causa da doença, a ponto de comprar coisas repetidas e tudo acima de 5 ou 6, ou seja, 6 refrigerantes de 2 litros (nem tomo refrigerante com frequeência), 6 iogurtes de 1 litro (quem vai conseguir tomar em uma semana isso), 6 peças de carnes (que devem ser congeladas), já comprei títulos de livros que já possuía, e daí em diante. Mas ainda bem que estou controlado e monitorado há bastante tempo.
    Nosso mundo vive de ostentação a todo momento. O vizinho quer saber que carro temos, como é nossa casa, se nos vestimos bem. É o capitalismo selvagem em que vivemos que cria essa situação.
    Parabéns ao Afonso pelo belo texto, e pra você amiga querida por publicá-lo em seu blog maravilhoso.
    Um beijo enorme e um ótimo final de semana pra ti.

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    • laynnecris disse:

      Oi, Alex… que comentário gigante… (adoro). Você expondo assim o seu problema, me faz imaginar que essa nova era (consumismo, individualismo, competição, etc) é a força motriz de todos esses males; desde a ansiedade até as demais síndromes… Somos todos “personagens” deste espetáculo do mundo!

      Fico muito contente por partilhar conosco sua experiência. Tenho certeza que não é fácil pra ti e deve ser uma luta todos os dias!

      Um grande abraço… Fique bem

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  2. O ser humano é um animal quê, quão mais encurta as distâncias físicas, mais aumenta as distâncias sociais.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Que bom ler esse artigo, aqui estão questionamentos que me faço há muito tempo…Mas sobre a questão da ganância do ser humano, sabe… acho que esse é o nosso grande mal e é um caminho sem volta.

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    • laynnecris disse:

      Realmente o artigo é muito bom! Adorei ler e admiro os artigos do Afonso, sempre muito atuais e provocadores. Triste, mas também acho que é um caminho sem volta. Desde sempre homem não consegue se satisfazer com o que tem, está sempre querendo mais e muita das vezes apenas para “Ter”…

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  4. Cris Campos disse:

    Somos a resposta aos paradigmas. Repassamos comportamentos e crenças sem quaisquer questionamentos, fomos mecanizados. Sempre sofri com isso porque nunca aceitei tradições por aceitar. O Natal mesmo é, com o perdão da palavra, um grande embuste. Não falo de Cristo, mas da manipulação da igreja em torno dele, até porque Cristo nem nasceu nessa data. Enfim, a contemporizacão é o que mais me incomoda. Pensar é fundamental e infelizmente é o que fazemos cada vez menos.

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  5. keniabohochic disse:

    Oi Laynne, gostaria que v participasse conosco do Premio Dardos te indiquei ao PrEMIO LINDA.
    https://bohochic2015.wordpress.com/2015/12/28/premio-dardos/

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  6. Adorei ler este artigo Lay!! Creio que no mundo em que vivemos hoje as pessoas estão mais preocupadas no ter” do que no ser”. Essa época de Natal é encantadora, e eu realmente adoro, mas com o tempo parece que foi perdendo o seu verdadeiro significado, e essa onda de consumismo dominou a todos e só se importa a quantidade de presentes, e não o real significado… E isso é triste de se ver, mas ainda há pessoas que dão valor a isso!
    Beijão ❤

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  7. Pingback: O copo Mágico – Por Anna Caroline | Meu Espaço Literário

  8. aparecidadias disse:

    A tecnologia faz parte da nossa vida, mas não pode determinar quem somos, nem nos colocar numa posição de destaque se possuirmos os melhores equipamentos. A felicidade está no contato com o outro e com a natureza. No respeito à diversidade.
    Percebo que, enquanto pais e professores podemos lançar a semente.
    Um braço.
    Aparecida Dias

    Curtido por 1 pessoa

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